sábado, 12 de agosto de 2017

Mundo Todo - Todo Mundo

        Desde minha partida de Montpellier, estive visitando amigas, amigos  e familiares entre a França, a Bélgica e a Holanda.
        Hoje estou em Namur, na Bélgica, visitando a família  de meu ex-marido e de filho e segunda parto pra Paris, passar dois dias visitando a grande amiga Maria do Céu, na casa onde fui babá em 1992/1993.




Coração na palma da mão, vacinas tomadas, vistos em ordem, mini mala pronta e lá vou eu:

16/08 -  Paris - Dubai
17/08 -  Dubai - Bangkok
07/09 -  Luang Prabang - Bangalore
16/09 -  Bangalore - Singapure / Singapure Brisbane
26/11 - Sidney - Santiago / Santiago - São Paulo

Thailândia:A proposta é passar uns dias em Bangkok no Shanti Lodge, uma pousada simpática na beira do Rio Chao Phraya e depois subir de trem de Bangkok à Chiang-Mai,  no norte da Tailândia, onde passo uns dias no Tao Garden, um templo/spa de cura à beira do Himalaia, próximo à uma reserva florestal . De lá continuo de trem ou busão rumo ao Laos.


Laos: Conhecido, juntamente com o Camboja,  como o país de gente mais simpática do mundo (precisava disso, rsrs) criarei meu roteiro quando estiver por lá.. reservei o hotel  Villa Laodeum em Luang Prabang de 01 a 07 de setembro.


Ìndia: de Luang Prabang tenho um vôo para Bangalore na Índia e lá monto meu roteiro na hora e passo dez dias conhecendo a região e realizando meu sonho eterno de pisar no chão da Índia, de sentir o povo de lá. Me disseram que o sul da Índia é pouco visitado e muito especial. Vou conferir.



 Austrália: de Bangalore, na Índia,  vou pra Brisbane, na Austrália, passando pelo aeroporto de Singapura e na Austrália fico à princípio até 26 de novembro na casa da grande amiga, Ana Paula Lagazzi Baggio.
Pode ser que fique mais tempo, mas pode ser que volte antes, pois a saudade da família,  dos amigos, do povo e das paisagens do Brasil e a vontade de recomeçar minha vida lá, aumenta a cada dia.


..e vou seguindo assim escutando o vento, os sonhos, e a voz de Deus em meu coração de melão.

dezembro/ 2015 a julho/2017 - 18 meses na França


18 meses em Montpellier, na França de dezembro de 2015 a julho de 2017.
Comecei alugando um apartamento mobiliado para mim e para meu filho que estava lá para fazer testes de futebol e analisar a possibilidade de fazer faculdade na França, já que seu pai é nascido na Bélgica mas com nationalidade francesa.
Em seguida, aluguei salas em dois consultórios da cidade pra trabalhar como terapeuta, aguardando a equivalência  dos meus diplomas de Graduação Psicologia da PUCC e do Mestrado em Educação da Unicamp para exercer a profissão.
Em março/2016 , meu filho resolveu voltar pro Brasil: "Mãe, esse lugar é triste demais!". Eu me sentia em paz, numa cidade agradável, onde se podia sair sozinha, onde o transporte público funciona perfeitamente, onde as pessoas mais velhas são valorizadas, onde há mais igualdade de gênero e mais conquistas no nível social. Sentia que precisava desse tempo, desse aprendizado, dessa serenidade...
Em julho de 2016 fui contratada pela Escola Waldorf de Montpellier, como contadora de histórias e recreacionista para o ano escolar de Setembro 2016 a julho 2017. Assumi também o compromisso de alojar em minha casa uma jovem voluntária alemã por este período.
Mas a saudade era quase mortal. Gelava a alma. Fui em agosto, outubro e dezembro pro Brasil. (aniversário de meu filho, meu aniversário e formatura dele no Ensino Mèdio, respectivamente)
Em dezembro, percebi que o caminho de meu coração me conduzia de volta ao Brasil e tudo que eu economizava, gastava em passagens de avião, atravessando o Oceano Atlântico pra visitá-lo.
 Aí deixei de lado os projetos de consultório, de alugar um apartamento num bairro mais agradável, de comprar um carro, de procurar mais empregos e comecei a planejar minha volta pro Brasil...
Em fevereiro decidi que já que estava na Europa, compensava fazer uma viagem legal antes de voltar, já que daqui os preços são mais acessíveis e que eu já estava "à meio caminho andado".
Uma amiga de infância que mora na Austrália com suas duas filhas, tinha me convidado pra passar um tempo com elas em Brisbane e foi aí que montei meu roteiro: compraria um bilhete "Volta ao Mundo" que custa em torno de 1.800 euros e passaria pela Ásia, Austrália e, finalmente Brasil.
Para poder realizar este projeto, comecei a aceitar todas as propostas de "baby-sitting" das mães das crianças da Escola Waldorf e passei o primeiro semestre de 2017 entre brinquedos, mamadeiras, fraldas, chupetas, histórias e canções de ninar!
Em julho/17 meu filho voltou pra me visitar e visitar a família belga e fizemos algumas viagens bem gostosas juntos.
Agora estou entre a Holanda, a Bélgica e a França, visitando amigos e "fazendo hora" pro dia D da partida que será daqui a 4 dias,  na próxima quarta-feira,  um dia depois do 15/08, Dia de Nossa Senhora do Patrocício, Padroeira de Araras, cidade onde nasci e dia do aniversário de meu pai, Fernando Zurita Fernandes, que faria 81 anos de idade.


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Personagem n° 3: Ângela, a anja espanhola






Muito muito parecida com a Rita Cadilac, o rosto acho, o corpo um pouco também.
Uma fofa.
Carinhosa, atenciosa, ponta firme
. No dia de fazer faxina no prédio, pela manhã, está sempre conversando com a mocinha loira que trabalha no predinho gêmeo da frente, que divide o mesmo portãozinho e o mesmo corredor /jardim de entrada com a gente.
Toda vez que nos encontramos é assim, começamos a "hablar" em espanhol e, do nada, ela passa pro francês e eu sigo. Acontecia assim também com a portuguesa querida de Paris e sua amiga de Bordeaux, começavam a falar em portuguès, depois virava francês, aí voltava pro português e terminava no francês. Acho que acontece assim com muita gente que mora fora, chega uma hora a gente perde um pouco a língua natal, esquece uns termos. Hoje mesmo, pra escrever "prejudicar" no post sobre a Mme Jeannine, tive que olhar no google tradutor, pois só lembrava de "abimer", coisa de quem abusou dos neurônios, ou é assim mesmo e pronto.
Bom, enfim. Ângela fez a paella, Ângela puxou o cordão das danças e aguentou firme até tarde, dançando e animando a galera e no dia seguinte, quando fui na casa do proprietário Marco pra ajudar a limpar as coisas, ela estava lá na pia, feito um furacão, lavando toda a louça da véspera e depois limpou o chão, os vidros, um fenômeno da limpeza, a Angel. O pessoal fala Angel. Mas é o jeito francês de ler Angela mesmo.
Enfim. Mora sozinha, aqui no nosso primeiro andar.
Outro dia fui na casa dela. Ela tinha me pedido emprestado meu carrinho de fazer compras (daqueles de velhinha ir na feira), pois estava com dor nas costas.
Apartamento super fofo.
Almodovar.
Almodovar fofo.
Se é que isso possa existir.
Hoje encontrei com ela de novo. É o dia da faxina na área comum do prédio. Estava muito abalada. um cara subiu na marquise da entrada do prédio e tentou entrar no apartamento dela. Ela conta que gritou muito e o cara fugiu assustado. Mas está bem nervosa.
Prometi um relaxamento, amanhã vamos marcar.
Aqui não é muito comum essa história de ladrões e assaltos e quando acontece as pessoas ficam muito chocadas.
Nem contei que minha mãe já teve uma arma na cara e quatro horas trancada na casa dela enquanto os caras levavam tudo em várias viagens no carro dela.
Nem compensa.
Mas compensa fazer um relaxamento/reiki/jin shin cheio de carinho e luz pra ela ficar boa logo.
E voltar a cuidar desse lugar.
Como sempre fez e faz. Mesmo nervosa, mesmo abalada.
Ela.
A anja.

Personagem n° 2 Amar







Não. Não é o verbo Amar.
É o Sr. Amar. Um árabe que pode ter entre 40, 50 ou 60  e poucos anos, idade indeterminada.
Nascido na Argélia, mudou-se pra Montpellier há alguns tantos anos onde vive até hoje com a mulher e os filhos.
Homem "Bom-bril" é o  "faz tudo" a serviço dos proprietários do predinho onde vivemos.
Ajudou a construir o prédio, pedreiro, encanador, eletricista, marceneiro, carpinteiro, tapeceiro, jardineiro e, na horas vagas, D.J.!
Sim, exatamente.
Conhecemos o Amar no apartamento do proprietário quando viemos pela primeira vez ver o imóvel que tínhamos acessado no site "de particulier a particulier location appartement", indicado pela moça, a princípio chata e fresca de uma imobiliária que nos assegurou que ninguém, a não ser as pessoas desse site, que são os próprios proprietários de imóveis, nos alugaria um imóvel sem termos, fiador, emprego fixo , enfim.
Fumando um cigarro atrás do outro, dentro do apartamento do proprietário, (que também fumava muito, como muita gente aqui), Amar sempre contribuía com uma informação ou um comentário em todos os assuntos. Seja a respeito dos campinhos de futebol do bairro, das escolas públicas, etc e tal, inventando o que não tinha certeza.
Já me simpatizei desde o primeiro momento, com esse árabe de sorriso maroto e olhar perspicaz de menino que teve direito e usufruiu de uma infância de moleque atentado.
Este apartamento, foi o primeiro e único que visitamos.
A prontidão em ajudar do proprietário (que é outro personagem), a presença engraçada de Amar, as visitas breves Mme Jeannine, vizinha do proprietário  e da Ângela,  a anja-espanhola que faz a faxina e mora também no prédio, enfim, todo esse ambiente familiar e acolhedor, fizeram com que eu decidisse por esse apartamento logo de cara e cancelasse todas as outras visitas agendadas com os demais agentes imobiliários que tínhamos contactado.
Mas voltemos ao Amar.
Na segunda semana nossa aqui no encantado imóvel, já fomos avisados que haveria uma Festa de Reis no salão de festas do prédio e que Ângela prepararia uma autêntica paella para deleite de todos!
No dia da festa, atraída pela música, dei uma passada no salão no período da tarde para sapear dar uma "força" pra galera nas arrumações.
Lá estava Amar, entre fios e botões, instalando caixas de som que não desapontariam o Beto Guedes na BoAAAte por ocasião de sua passagem/show em terras ararunas e pucarenas.
Super potente o equipamento.
E Amar, como bom menino "Gabriel Pavo Pavan" crescido que era, testava o som a fundo, no último dos decibéis possíveis, fazendo tremer as estruturas do prédio comprido de um só andar.
"Buena Vista Social Club" era a trilha sonora e aí eu já pude comprovar, mais uma vez, como tinha escolhido bem o local pra fazer nossa vida aqui.
À noite, voltei para o salão, já paramentada com meu vestido herdado da querida e saudosa Marcela Finardi en nosso bazar de trocas e reformado por mim, em minhas divagações artesanais sobre o tema da "selfie costura". Lá chegando me deparei com os demais habitantes do prédio, uma galera pra lá de interessante numa miscelânea de idade, raças, nacionalidades, credos e cores.
Muito legal mesmo. Minha cara, mais uma vez.
Mas voltemos ao Amar. Não o verbo. O super-árabe.
Orgulhosíssimo, atrás de sua mesa de som, manejava os botões de tal forma que era impossível conversar. Potência total! E Amar sorrindo largo, em êxtase!
Aí, a mocinha cigana com seu namorado gordinho sugeriu Gipsy Kings e fomos inundados por uma avalanche de "Jobi-jobá, cada dia que te quiero más!" e todo mundo levantou de seu lugar, deixando a Paella, o vinho, a salada de lado e hop! pro salão dançar!
E nem neste momento, o poder e a supremacia de Deus-Amar deixaram de se fazer notar, pois cada vez que a galera na "pista" se soltava dançando e entrando em delírio, Amar cortava o som, no meio da música mesmo.
Todo mundo olhava pra ele. E ele lá. Com seu sorriso matreiro, mexendo nos botões e mandando outra música, nada a ver com a anterior. Disco anos 80. Músicas árabes. Músicas espanholas. Rap francês. Se a galera começasse a dançar e a se animar..hop! de novo: Amar cortava a música e ria, ria solto. E a gente ria também.
Por falar nisso, faz tempo que ele não aparece por aqui. Estamos esperando. Pra consertar umas coisinhas que estão quebradas desde que entramos no apartamento.
Mas Amar é assim. E aí se faz necessário lembrar da canção de Renato Russo:

" É preciso Amar (e esperar) como se não houvesse amanhã!"

Personagem n°1: Madame Jeannine.

"A vida passa lentamente, e a gente vai tão de repente
tão de repente que nem sente, saudade do que já passou"
(De repente, Califórnia - Nelson Motta)



E de repente me vejo aqui, vivendo uma vida na França, com pessoas vivendo em torno,
Uma vez por semana jogo baralho e tomo chá (não necessariamente na mesma ordem) com a Madame Jeannine, uma senhora de 86 anos que mora num apê no térreo daqui do predinho onde moramos.
Madamme Jeannine é nascida em Montpellier, sobreviveu à Segunda Guerra e tem muitas, muitas histórias pra contar. É poetisa, foi casada três vezes e trabalhou até se aposentar como enfermeira em hospitais e tem três filhos e alguns netos.
Somos amigas. Jogamos baralho, ela conta sua vida, me ensina as gírias, expressões engraçadas e palavrões do sul da França.
E eu vou aprendendo...
Madame Jeannine gosta de falar.
Eu ouço.
Madame Jeannine prefere falar do que ouvir e eu gosto de ouvir as histórias.
Mas às vezes ela fica curiosa e me pergunta sobre minha vida também. Breves momentos.
Além das aventuras de amores e de guerras, da vida de seus filhos, há também as histórias de suas múltiplas cirurgias, de suas dores matinais, de suas brigas com as faxineiras que a agência manda.
Madame Jeannine tem um gênio forte.
Bem forte.
Estou acostumada com gente assim, me lembra minha avó Santa.
Outro dia ela me pediu pra lhe mostrar a agência do Correio pois queria enviar umas cartas. Bom, passei na casa dela e ela já estava pronta, de óculos escuros Matrix, sentada na cadeira de rodas elétrica "power multi rangers plus" que ela usa pra sair pela rua, apesar de se movimentar relativamente bem sobre suas próprias pernas quando está em casa.
Depois de alguns minutos andando com ela pelas calçadas(a passos largos pra acompanhar o ritmo da cadeira voadora)  pude constatar que Mme Jeannine e sua cadeira zumbi constituem um verdadeiro perigo para a humanidade!
Descobri que Deus, além de ser brasileiro, é francês também.
A cidade, este bairro e a França em geral é toda equipada para bicicletas, carrinhos de bebê e cadeiras de rodas, com rampas, ciclovias especiais, etc e tal.
Mas mesmo assim, em alguns momentos, ela decide que a rampinha de acesso da rua pra calçada não está a contento e que a alturinha de desnível entre a rua e a ciclovia poderia prejudicar as engrenagens, ou mesmo suspensões de sua super hiper cadeira turbinada.
E então o caos se faz. Ela maneja a espécie de controle de videogame que tem no braço da cadeira, aperta uns tantos botões de ré e frente e etc e tal, e... tcham e vrummm
E lá vai Mme. Jeannine pelo meio da rua!
Sim, pelo meio da rua mesmo, como se fosse um carro.
Enquanto isso, orgulhosa, ela acelera e me conta que fez uma espécie de auto-escola pra dirigir a tal cadeira e eu, correndo pela calçada ao lado, esbaforida, num silêncio tenso de preocupação e desespero, questiono a eficiência de tal instrutor.
E aí percebo, aliviada e divertida que tudo se arranja com umas  freadas aqui, umas buzinadas ali, e a paciência de outros tantos motoristas abençoados pelo "Deus brasileiro exilado na França" ou talvez por Alá que, pelo que já deu pra perceber, vagueia também por essas terras entre tapetes de orações, bombas e olhares maliciosos no tram.
É bom ter Mme Jeannine por perto.
Se demoro uns dias sem ligar ou aparecer, ela liga:
"Tá viva? Pensei que tivesse morrido em algum canto!".
Eu rio. É bom.
Pensei até em fazer um trabalho voluntário num asilo que vi aqui por perto. A "Casa de Repouso" se chama "Les violettes" (As violetas, nome bem sugestivo pra nós, da Família Fernandes) mas pensei bem e achei melhor não.
Já tenho a Mme Jeannine.
Já tá de bom tamanho.
Vida longa à Mme Jeannine!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Vale a pena ler, ou assistir o vídeo...

http://markmanson.net/brazil


a tradução está neste link


http://markmanson.net/brazil_pt

e no facebook um vídeo da Bel Pesce lendo a tradução


https://www.facebook.com/BelPesce/videos/1252720611422579/?hc_location=ufi

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A missa no Santuário Saint Roch



E ontem, mais uma vez, saí andando, flanando pelas ruelas como sempre aqui por essa cidade medieval.
Passei na frente de uma igreja, entrei: Santuário de Saint Roch (o padroeiro da cidade). Tem a Catedral São Roque, imponente e alto e o Santuário, fofinho entre becos e ruelas.
Nem fiz os três pedidos, esqueci. Também, tá tudo tão dando certo, tá tudo pedido, tá tudo concedido! Deus sabe o que precisamos antes mesmo de pedirmos,, já diz a lenda...
E aí a missa ia começar, estavam ajustando os microfones, acendendo as luzes e afinando o órgão e as vozes e aí fui ficando, assisti a missa, falei tudo em português e cantei músicas em português baixinho na hora do ofertório ("Receba , ò Senhor a nossa oferta que será então ,na certa o seu próprio ser")>
Na hora do” Santo Santo Santo, Senhor Deus do Universo”, encaixei a música “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será acrescentado Aleluia Aleluia!” numa hora nada a ver, só pra cantá-la baixinho, rsrs
E na hora da comunhão, eu comunguei. Comunguei pela primeira vez desde a separação. Aqui me sinto digna de comungar. Aqui não sou separada. Aqui foda-se, ninguém sabe e eu comunguei.
Na comunhão o padre-mor dava a hóstia e depois, ao lado, um coroinha chinês jovem segurava um cálice com vinho.
Fiquei observando. Algumas pessoas bebiam na taça dourada e aí o jovem chinês limpava a “baba” com um pano sagrado e eu ficava me perguntando se o vinho ia dar pra todo mundo. Mas aí  outras pessoas só  “tchotchavam” a hóstia no cálice. Eu preferi “tchotchar”, fiquei com nojinho...
Os que bebiam, bebiam todos naquele mesmo cálice, tipo "microbiagem" mesmo. Todos do mesmo cálice, o sangue de Cristo. Gosto dessa galera meio “foda-se” praquele excesso de higiene e nojo que o Brasil inventou de ter agora, importando dos EUA essa higienização das relações e dos ambientes. É como um vírus, o vírus de ter nojo. Acho que peguei um pouquinho esse vírus, rsrs.
E rezei o pai nosso em português mas prestando atenção ao jeito francês de rezar “Père nôtre (...), pardonez nos ofenses...”  
Na hora da “Paz de Cristo” me emocionei. Me emocionei “aux larmes”.
Dar a mão a todas essas pessoas, desejar a paz... e desejei a paz de cristo às pessoas em torno, à negra de peruca loira, ao casal de idosos, ao senhor que o telefone tinha tocado e ele não conseguia desligar, às mocinhas branquinhas que nem davam a mão direito....Mais adiante tinha também mais negros, um japonês, um casal de chineses, um casal de ocidentais, talvez franceses e mais uma galerinha que tanto podia ser francesa, como europeus em geral pelos traços e pela cor...
E foi bom ter ido à Igreja. Meu berço religioso, minha religiosidade mãe é o catolicismo, mesmo que eu fique atéia de vez em quando, ou budista, ou espírita, ou umbandista. A missa é o colo da minha religiosidade e me traz conforto e paz. Mesmo que eu esteja confortada e em paz. Mesmo assim é bom.
Depois saí de novo pelas ruelas "mediebelas" e passei na frente do consultório que tem umas salas pra alugar. Era pertinho de lá. E ao lado tem um restaurante chinês. Menu a 9.50 euros. Almocei lá. Como quem almoça no bairro. O bairro do consultório. e desci e virei a esquina e vi que tem uns barzinhos, restaurantezinhos bem legais por lá. E descendo já é o Observatoire. E pronto, o ponto do Tram pra voltar pra casa! 
Ponto e Pronto!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

FUNCIONÁRIOS BESTAS - E É PORQUE É MÊMO!!!

Eita povinho besta!
Uma graça, liberdade, igualdade, cultura literatura, etc e bla e tal e blá
Mas fraternidade nada! E aí tem hora que a gente tem que mostrar os caninos, assim bem expostos mesmo, com um sorrisinho Drizotti no final, tipo morde e assopra e agora, hop!
Parece que as coisas começam a funcionar!
Esse cartão de crédito que não chegava, e esse idiotinha do banco, todo estressadinho e engomadinho que me enrolava. E eu humilde e eu sorrisinho como sempre.
Ah, mas não agora
Agora não mais
Fui lá essa semana. Cheguei com meu ar 437, modelo, acessora do presidente dos Estados Unidos.
Falei com uma outra senhora, mal cumprimentei o idiota e disse que talvez feche a conta, que era um absurdo demorar mais de um mês pra ter um cartão de crédito e aí essa outra disse que se eu fizesse um seguro do apê que liberava e que “como a senhora não tem um seguro da casa? Ainda mais em Montpellier!” tchu tchu tchu bla blabla
E aí eu falei que era realmente um absurdo ter que fazer um seguro pra liberar algo que é de direito meu e etc e que se fosse fazer seguro nem sabia se faria lá porque queria pesquisar os preços e etc e tal.
E que além disso eu já tinha pensado até em fechar a conta nesse banco porque era inadmissível o que estava acontecendo. E que eu não domino a língua e isso me coloca em inferioridade perante a situação,
Aí ela que tinha começado a ameaçar ficar bestinha também, colocou o rabinho no meio da perna e disse que eu falo muito bem francês e risadinhas e simpatiquinha e “oui oui oui”.
E eu disse que não bem o suficiente pra me impor da maneira que gostaria, com minha cara de “diretora de escola dos anos 50”. Talvez uma das sombrancelhas levantadas pra impressionar mesmo.
E aí tinha esse papel do correio que não chegava. E aí o bonhomme passa e “Bonjour Madamme, ça vá?” e eu de sorriso amarelo cor de bosta de recém nascido e ele explica e eu lá, em cima do meu tamanco de bahiana, emprestado de alguma entidade arretada que me acompanhava naquele momento. E então eu tinha que ir no correrio com o papel do recibo.
Aí venho pra casa, pego algo que se assemelha com o tal papel, vou até o correio embaixo de chuva e não era aquele papel. Lógico. O tal papel tinha ficado no banco com o engomadinho. Ainda bem que o funcionário do correio era um fofo e já foi várias vezes pro Brasil e ainda me ensinou a usar a máquina de pesar cartas e calcular o valor e receber moedas automaticamente que tem lá. E eu mandei um cartão postal pra vó do Nick que tem 90 anos e mora na Bélgica. E passei na padoca da moça simpática e comprei croissants pro Nick e voltei pra casa bela e formosa e chovia menos.
Passei o dia de ontem ignorando essa situação. Feito pão. Que a gente não mexe e deixa crescer pra ver o que deu. Fiz comidas, escrevi, fiz uma baita faxina na casa, fui ao supermercado e vida normal. E quem disse que eu queria um cartão de débito? E foda-se.
Aí hoje, acordo bem, sem dores no pescoço e na cabeça (depois dos dois Tandrilax de ontem de de antes de ontem. e sem azia nem dores no estômago pós Tandrilax graças ao chá de gengibre com maça e ao jejum de café).
E acordo o Nick e sirvo o leite e digo tchau boa aula e lavo roupas, cozinho um almoço bem gostosinho pro meu Nick. E ele vem e ele vai de novo porque a escola tem aula a tarde também. E tomo um banho, deito no sol da tarde delícia que entra pelo vidro da janela de meu quarto iluminando a cama, durmo e aí ligo pro tar do Zé Mané do banco. O tal do engomadinho. Estava em reunião. Disse que me ligaria mais tarde.
E eis que pronto! Acabou de ligar e me pergunta se tenho uma carteira de identidade brasileira. Eu digo que sim. Então que vá até lá amanhã e fale com ele. Mas tem que ser com ele pq outra pessoa não irá me entregar o cartão.
Ah! Ah! Ah!
Então tá.
Então merci beaucoup, monsieur le renard, anão de jardim.
Pronto.
Aprendeu a trabalhar nesse meio tempo ? que bom!
Amanhã tô aí.
E brigada, merci bocú (cú cuú mesmo) por me ensinar como tratar os tipinhos e  tiposas como vocês daqui pra frente.
O segredo é o seguinte. Porcos capitalistas a gente conserva no chiqueiro de nossas relações e a galera humilde e simples, com brilho no olhar e sorriso nos lábios, a gente guarda com carinho no mais fundo de nosso coração.
E é isso.

”E é porque é mêmo. E eu num tô aqui pra fazer jardinho não!! Pranto e pronto!” 

ESTADO LAICO: NÃO EXISTE PECADO DO LADO DE CIMA DO EQUADOR

Estado Laico funcionando do jeito que precisa ser. To gostando disso!
Na escola do Nick não pode entrar de boné, nem de gorro, nem chapéu, nem burca, nem turbante. Cabeça descoberta. Estado laico. Religião da porta pra fora da escola.
Bom isso.
Enquanto isso, eu, devota de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Miguel Arcanjo e São João Evangelista, e é claro, dando um alô de quando em vez pra Nossa Senhora Desatadora dos Nós, Santo Expedito e o Anjo da Guarda, eu, Adriana Dezotti Fernandes, deixo minha fé no travesseiro, nas imagens do criado mudo e em meu coração cristão, permitindo que meu cérebro raciocine com os meios que ele tem: lógica, memória, aprendizado e deduções, frutos de armazenagens e  massagens na massa cinzenta, dita pensante. Fica mais fácil assim. Ado, a ado, cada um no seu quadrado.
Assim não queimamos bruxas
Assim não explodimos discotecas, praças e botecos.
Assim não deturpamos o que é de todos.
Respeitando o que é de cada um, seja a religião, o ateísmo ou a vontade de não ter uma opinião formada sobre tudo.
Liberdade é isso. Uma escola que ensina o que deve ser ensinado em uma escola. A história de seu país e do mundo, o idioma usado pela população de tal país, assim como a produção literária e as regras pra se escrever em tal língua. Mais duas línguas estrangeiras. Matemática, ciências, etc e tal.
A religião será então divulgada e praticada pelos adeptos nos locais designados pra tais atividades, sejam igrejas, mosteiros, mesquitas ou templos determinados pra tal fim, (inúmeros, múltiplas opções de escolha). Ou pode ser cultivada na família. Ou não.
Muito prático.
Muito eficiente.
Muito bom!
Minha lógica parece funcionar melhor num país assim.

(E minha fé, diga-se de passagem, tem se fortalecido cada dia mais, nesse mundão de meu Deus!)

domingo, 17 de janeiro de 2016

UM SÁBADO À TARDE SOBRE A TERRA...

Lá fora, três espécies de pinheiros, árvores que perderam suas folhas nos invernos, imensas gralhas brancas e negras no gramado da grande casa de pedra do vizinho.
E tem o vento. E o sol.
Sempre o sol nesse sul da França abençoado.
E o filho fazendo trabalho de espanhol na médiatheque de Mosson com os amigos de escola.
Ele já tem dois amigos franceses, um amigo negão que passou a vida na China e o árabe pequenino, todo confiante.
E cá estamos nós. No meio desse “rédemunho”: entre negões cidadões do mundo, árabes machistas que “se acham”, mulheres de cabeça coberta simpáticas e sorridentes e que me observam curiosas e franceses e francesas que têm a República como orgulho e como símbolo a bela Mariane, mostrando as tetas, e a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade como princípios máximos e absolutos (só que não e vamos descobrir, juntos, até que ponto),
Ontem saímos de nossa periferia árabe e pós moderna e fomos dar um rolê pelo lado antigo e medieval da cidade. São duas dimensões completamente diferentes. Aqui são os predinhos dos anos 70 e 80, baixos, de um, dois, no máximo três andares (acho que devido àquele papo do Luis XIV que fez uma lei que não poderiam ser construídos edifícios mais altos que a Promenade de Peyrou etc e tal ou se simplesmente é uma lei urbana aqui (e na França em geral) mas o que conta é que os prédios são baixos, feito Praia Grande de Ubatuba, ou Tenório ou Itaguá.
Apesar do sol, do céu azul, dos pinheiros e dos pássaros à prova de frio. Faz frio, muito frio pra nossa pele de brasil. Cinco graus. No sol.
As aves que aqui gorjeiam, definitivamente, não gorjeiam como no Brasil. Mas é um som legal. Um gorgeio bom. Será que gorgeio vem de gorge que quer dizer garganta em français? Surement. Com certeza e com cerveja.
Só sei que tô bem.
É bom estar aqui, longe de tudo e de todos. Blancheur. S’éffacer du monde.
David le Breton, no livro “DisparaÎtre de soi” analisa isso. Me analisa. Querer sumir sem morrer. Simplesmente se dar o direito de recomeçar. Se reinventar.
E o vento ventando “e o nó na madeira, festa da cumeeira”. Como a festa no telhado da casa do Plá. “Pedra de atiradeira.”
E a vida tá boa aqui. Simples e boa. De cozinhar e lavar roupas e estender e dobrar e comprar coisas pra cozinhar e esperar o filho e escrever e socializar com a vizinhança do prédio aqui. Super gente boa. Nem frios. Nem entrões. 
Aleluia, hosana nas alturas. Êpa hey meu pai!

Tudo sob controle
E tem eu
E a casa
E as coisas
E esse note
Onde I note
E anoto
As palavras que dizem de mim
De minha vida de agora
O note
Anote ando
A note ado
De noite e de dia
Sempre
Sem sábados
Sem obrigações
Só sendo
E sendo só.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Corconne

Corconne, uma cidadezinha a 38 km ao norte de Montpellier com montanhas, pedras e uma vegetação tipo cerrado que lembra muito São Thomé...
hajam letras pra descrever a sensação de inteireza e tranquilidade ao me dar conta de que o planeta inteiro é um só canteiro de flores e, como diz Zé Geraldo: "uma parte do mundo é nossa morada e a outra parte é nosso quintal"!



E como dizia Tom Jobim...



Um ano após o atentado na redação do jornal "Charlie Hebdo", a tv e os jornais, só falam nisso. Tipo Globo, SBT, Record, sensacionalisando e meio que apavorando a gente.
Comprei o jornal de ontem (imagem da capa anexada abaixo) e já li quase inteiro. Dessa vez eles provocam os católicos...
Eles continuaram a publicar e dos 10 mil assinantes que tinham no começo de janeiro de 2015, passaram a ter 220 mil após os atentados. Essa edição de um ano do que eles chamam de "carnificina" traz depoimentos dos sobreviventes e poemas de pessoas famosas como Isabelle Adjani, Charlotte Gainsbourg e Juliette Binoche, entre outros. Todos defendendo o direito da liberdade de expressão e do Estado Laico.
Não sei o que pensar. Ano passado, quando aconteceu, eu estava no Brasil e pensei que não era nada legal ficar zombando da religião alheia, mas também que nada, nunca nesse mundo justificaria a atitude dos irmãos Kouachi, disparando cerca de sessenta tiros numa sala de 20 mts² para defender a honra de Alá.
Hoje, aqui, penso que, realmente, essa liberdade de expressão conquistada e mantida pela França até os dias de hoje é uma preciosidade e se curvar a bárbaries como essa seria, mudando o comportamento, de certa forma, abrir mão desses direitos.
Como estrangeiros brasileiros, contamos com um acolhimento e uma simpatia inesperados por mim, que tinha vivido ilegalmente na Paris dos anos 90 e tinha sentido na pele o que é ser um imigrante. As pessoas dos serviços públicos, das escolas, enfim, as pessoas em geral são muito carinhosas e simpáticas com a gente aqui, gostam do nosso sotaque, suspiram nostálgicos quando explicamos que somos do Brasil.
Mas basta uma pequena situação, como ver o filho indo pra escola sem conhecer ninguém, ou ter que comprar um bilhete de tram e não ter moedas certas pq a máquina não dá troco ou tirar uma foto 3 X 4 numa máquina automática e não conseguir fazer com que funcione, que já nos sentimos menos empodeirados, meio que desamparados...
Mas, e os demais imigrantes? como são acolhidos? como são tratados? Como lidam com a tecnologia onde as pessoas foram substituídas por máquinas?
Todos os terroristas, até hoje, eram pessoas que nasceram na frança, filhos de pais árabes... de certa forma, são como aqueles adolescentes norte-americanos que atiram nos colegas de escola que fizeram bullying com eles. Talvez aqui seja como se todo o país fizesse uma espécie de bullying com os estrangeiros, apesar de acolhê-los oficialmente.
Bom, enfim. Terror à parte, as pessoas estão por aqui, pelas ruas, indo e vindo, continuando suas vidas, ... e nós também!
Seja sob o manto de Nossa Senhora Aparecida, sob os olhos de Alá ou sob a lógica positiva do ateísmo.
No fundo, é como dizia Tom Jobim:
"Viver no exterior é bom, mas é uma merda.
Viver no Brasil é uma merda, mas é bom".
(Antonio Carlos Jobim)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz ano novo

RECEITA DE ANO NOVO
(Carlos Drummond de Andrade , "Receita de Ano Novo". Editora Record. 2008.)
"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A alemanha - Colônia


Desde o advento da unificação europeia  e do euro, a europa não tem mais fronteiras. Quando eu vivi pelas bandas de cá de 1991 a 1995, ainda tinha.
Então tudo é muito novo pra mim.
No último domingo, saímos de carro de Namur, na Bélgica, rumo à Alemanha.
Depois de uma hora e meia, uma pequena placa, ou mesmo nem isso, sei lá e tudo muda: o idioma nas placas, o estilo da arquitetura, as fábricas enormes e antigas, e voilá! Estamos na Alemanha! Atravessamos uma ponte sobre o Rio Reno e chegamos em Colônia.
Como não havia vagas, vamos na direção de um estacionamento, daqueles tipo prédio de estacionamento no centro da cidade e lá vem a primeira surpresa: letras em verde, palavras em alemão, o símbolo do feminismo precedendo a frase e nos damos conta que todas as vagas do primeiro andar do estacionamento são reservadas às mulheres!
Pelas ruas, bares e restaurantes, homens levando os bebês em slings e porta-bebês, empurrando os carrinhos, ou sozinhos, ou acompanhados pela mulher que leva a bolsa.
Graças à luta das mulheres  desde os anos 50 e 60, que a mentalidade do mundo machista tá se extinguindo e é por aqui que sentimos os primeiros e bem aventurados ventos...
Seguimos por ruas estreitas em busca da famosa catedral de Colônia que resistiu aos bombardeios da Segunda Guerra mundial. Seguimos um som e eis que numa esquina nos deparamos com uma dupla de curdos ou turcos de uns sessenta anos, tocando uma espécie de flauta e outro uma percussão típica. Mais adiante, um outro som invade nossos ouvidos, passamos diante de lojas de  souvenir, sorveterias e cafés e eis que diante de nós surge a praça e a tão procurada Catedral de Colônia! Aos pés da catedral, no meio da praça, um piano de cauda negro colocado sobre uma plataforma com rodas, nos esclarece sobre a origem da música maravilhosa que nos atraiu até lá. A catedral é simplesmente maravilhosa! Muito mais linda que a Notre Damme de Paris por fora (se bem que por dentro, nada se compare à grande mandala de vitral colorido da catedral francesa).
É simplesmente milagroso o fato dessa catedral ter se mantido em pé enquanto toda a cidade ruía e se transformava em escombros. Dentro da catedral, era como se eu sentisse a presença de todos aqueles que devem ter se abrigado lá, enquanto suas casa queimavam sob as chamas da ignorância, da ganância e da ânsia de poder infinitamente idiota dos homens de ontem (e, infelizmente de hoje ainda...)
Saindo da catedral, passamos ao lado de um portal romano, do ano 50 depois de Cristo e depois  nos sentamos em bancos, de frente pra praça, ouvindo ainda o som melodioso do piano de cauda e o agrupamento multirracial, multicultural e cosmopolita de pessoas que transitavam por ali.  Um tanto de gente do mundo todo, de todas as idades, de todas as cores, desfilando sob meus olhos que não se cansam de se extasiar e se deliciar com esse banho de história e de novidades, com esse tufão de energia e de persistência do povo alemão que tudo perdeu e tudo refez em tão pouco tempo...








A Bélgica


A Bélgica. Um requinte e uma sofisticação que deixou a França pra trás. A França com seu orgulho exagerado, com sua auto-confiança cultural e territorial. E a Bélgica lá. Com suas cortinas bordadas, suas janelas, sua arquitetura à “prova de neve”. Seus chocolates, sua cerveja, as batatas fritas, a música de Jacques Brel, o idioma francês, o flamengo (que é como um dialeto do holandês) e,  para um número bem menor de habitantes,  o alemão. A Bélgica que atravessamos em duas horas de estrada. Seja em qualquer direção, em qualquer lado. Das montanhas “les ardennes” , do litoral na Flandre, à fronteira com a Holanda,  ao Luxemburgo, à Alemanha ou ao norte da França. Duas horas de carro pra qualquer direção e lá estaremos. As estradas todas iluminadas. Na primavera, coelhos no acostamento, os pinheiros, no inverno, as árvores sem folhas , meigas margaridinhas nos gramados.  A simpatia de seu povo, a humildade de se saber culto sem precisar provar isso com nariz empinado e sotaque afetado
Namur, as casas de tijolinhos marrom escuro, as calçadas quase no nível da rua, o rio “la Meuse” que atravessa Namur, as montanhas arborizadas, as muralhas de “la Citadelle”,  o lado medieval da cidade e a família belga, acolhedora, sorridente, festejando nossa chegada.





Muitas construções novas e modernas, prédios de escritórios e apartamentos, seguindo o mesmo estilo de cores das construções antigas, numa arquitetura que consegue, ao mesmo tempo ser sóbria e inovadora. A França não consegue essa proeza. Quer inovar e as novas construções francesas, a meu ver, beiram o “kirsh”, espelhos demais, azulejos demais, como um grande camarim ou uma enorme sala de banhos. Apesar de ser vítima de zombarias e chacotas por parte dos franceses, a Bélgica continua sendo mais chique e mais sofisticada que a França de hoje (a meus olhos, obviamente).
Os Belgas estão decepcionados com seu rei. No auge da apreensão e do medo, na época do pós atentado de novembro, sabendo que os terroristas tinham partido de Bruxelas para explodir a França e que pra lá tinham voltado, o país em estado de alerta, em grau 4, o máximo de perigo, lá se vai o rei  passar uns dias de férias na Bretanha, tipo “foda-se”, tipo “vamos livrar o nosso”.
Algum paparazzi eficiente, clicou a família real em roupão de banho, tomando um drinque no aconchego de um spa à beira mar, no noroeste francês. O povo ficou “puto”. Depois disso, não contente, o rei aparece na tv para se explicar, gaguejando, dizendo desculpas sem se desculpar realmente e afunda ainda mais no mangue de descrédito que tinha começado a criar em torno de sua imagem real.
De resto, tudo continua como se nada tivesse acontecido. As pessoas vivem normalmente, fazem suas compras, tomando seus aperitivos nos cafés, comendo nos restaurantes e “brasseries”.

Os aeroportos aumentaram o controle (a companhia irlandesa Ryan Air, entre outras, oferece preços maravilhosos fazendo com que ir de avião fique mais barato que ir de trem hoje em dia). Ao passar pelo controle de passaportes, ainda no aeroporto de Montpellier, recebo um olhar desconfiado da agente da polícia federal ao apresentar minha carta de identidade francesa. Nos dias de hoje, não basta ter documentos e provar a nacionalidade europeia, os terroristas eram franceses e tinham todos os papéis em dia. Não. Hoje é preciso talvez ter a pele bem branca, rosada, olhos claros mesmo (ou talvez um crucifixo no pescoço) pra não levantar qualquer suspeita. Não sei. Mas vou passando e vou entrando, assim como a música de Caetano “Minha mãe, meu pai, meu povo” que ensina “a sentença de sempre pedir licença mas nunca deixar de entrar”.  

domingo, 20 de dezembro de 2015

As imensidões urbanas de Montpellier

Promenada du Peyrou

Contrastando com as ruelas e cantinhos, as imensidões!!

La promenade du Peyrou, également appelée place royale du Peyrou, est une esplanade de trois hectares aménagée en1689.(fonte titia Wikipedia)
A promenada do Peyrou, igualmente chamada de Praça Real do Peyrou, é uma esplanada de três hectares terminada em 1689. (tradução tabajara Drizotti)

Eu li numa placa que foi Luis XIV quem concebeu a praça que ele institui uma lei que vigora até os nossos dias, que as construções da cidade não podem ser mais altas que o beiral das muretas da parte baixa do parque.

Esses, reis com suas megalomanias, de um lado, trouxeram algumas vantagens. O lugar é lindo!  Lógico que não se pode distrair e é preciso sempre ficar de olho nos cocôs de cachorro que pipocam no meio do caminho e das calçadas, mas à parte disso, esse espaço é realmente de tirar o fôlego.

No final da alameda principal, um monumento com um lago em torno e atrás dele, os aquadutos romanos

à esquerda e à direita, lances de esquda que conduzem a uma parte mais baixa do parque. Pessoas tocando violão, se equilibrando em slacklines, passeando com cachorros, namorando...
Pela grade que dá acesso às ruas, outras ruelas, numa das quais,a casa de Augusto Comte, fundador do positivismo.
É. A França é tudo isso, seus reis, seus filósofos, seu iluminismo, seus cantos escuros, e no meio disso tudo, nós, de bocas abertas, nos surpreendendo com tudo, ainda. E sempre.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A imagem da ternura



anda e anda, avenidas largas e depois ruinhas e ruelas, castelos, igrejas, muros sinuosos, barzinhos, lojinhas e do nada, virando uma esquina, num calçadão estreito e pitoresco a imagem da ternura que faz o coração da cabocla derreter...

Arte de rua



No começo, não entendi. Associei com as bicicletas brancas da cidade de São Paulo as "ghost bikes" que são colocadas nos locais onde algum ciclista morreu por acidente de trânsito

(9 http://vadebike.org/2013/02/ghost-bikes/ ).

Aí devido a essa relação, essas bicicletinhas me davam uma certa aflição no início. Mas são tantas, espalhadas pelas paredes e muros da cidade que comecei achar que não seria possível, tanta criança acidentada num lugar onde o trânsito flui pacificamente e fui pergunta pro nosso querido "Tio Google" e aí está a resposta:

http://www.marieclaire.fr/,street-art-montpellier-velos-encastres-murs-artiste-inconnu,702337.asp

ou seja:
um artista anônimo, produz essa arte de rua em montpellier, paris, bruxelas e nova iorque: bicicletas BMX, incrustadas nas paredes. Ele diz que tem a ver com sua infância e que toda criança que teve uma bicicleta dessas sonhava com grandes aventuras... ele fez a primeira arte assim em montpellier, pra impressionar uma namorada e agora elas pipocam pelas outras cidades também!!!

Então é isso! Nada de mortes, apenas uma declaração de amor pra namorada, apenas uma forma de resistência de alguém que prefere permanecer anônimo e continuar a transgredir de uma maneira eficiente e divertida!  Et Vive la France!!

Montpellier é uma cidade cheia de ciclovias e de facilidades para os ciclistas.

E oremos e lutemos para que, no Brasil, a educação e a civilidade no trânsito evolua de tal forma que as bicicletas fantasmas, pintadas de branco, possam ser repintadas em cores e flores em homenagem à uma nova geração de condutores que respeitem os pedestres e ciclistas e de governantes que apoiem a criação de ciclovias e locais pra se estacionar bicicletas.
E que as pessoas finalmente entendam que tempo não é dinheiro e que uma cidade de ciclistas é uma cidade menos poluída, mais fluida,  mais feliz!




                                                             Ciclovia em São Paulo


                                     http://www.cetsp.com.br/consultas/bicicleta/400km.aspx



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

As ruelas de Montpellier



Há algo de pitoresco, de medieval, de árabe, de ancestral nessas ruelas estreitas, cheias de portas e janelas e lojinhas... um aconchego, talvez lembranças de vidas passadas, ou registros inconscientes de filmes assistidos ao longo da vida, sensações, memórias obscuras escondidas no mais profundo de mim, não sei. Só sei que gosto, me sinto protegida, em casa, acolhida, tranquila.
O poder de um estilo arquitetônico, a força que paredes de tijolo antigo e pedra e o entalhe das madeiras e a maneira de forjar os ferros das maçanetas, das dobradiças... é todo um conjunto que provoca a seu turno, um outro conjunto de afectos que, em uma só palavra pode ser definido: Bom!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Antígona


Antigone est un quartier de Montpellier conçu par l'architecte catalan Ricardo Bofill à partir de 1987 sous l'impulsion du maire de Montpellier Georges Frêche. La majorité des immeubles a été construite sur un style inspiré par l'architecture de la Grèce antique selon le projet de l'architecte suivant un axe qui se veut faire écho à l'est à celui qui a structuré la ville à l'ouest, avec lapromenade du Peyrou et l'aqueduc des Arceaux.





A Antígona é um bairro de Montpellier concebido pelo arquiteto catalão Ricardo Bofill a partir de 1987 estimulado pelo prefeito de Montpellier Georges Frêche. A maioria dos imóveis foram construidos inspirados pela arquitetura da Grécia antiga segundo o projeto do arquiteto, seguindo um eixo que pretende fazer espelho à leste ao que estruturou a cidade ao oeste com o callçadão du Peyrou e o arqueduto dos Arcos. (tradução Drizotti)




Bom tudo lindo, tudo maravilhoso para os arquitetos de plantão. Pra mim, sei lá... ficou estanho, impessoal. Há apartamentos, centros comerciais, mas tudo com ar de cidade deserta, parece que não há vida, tudo muito certinho, muito limpinho, muito Blade Runner, o caçador de andróides.
O agente imobiliário tinha encontrado um apartamento pra gente lá. Jamais moraria num lugar desses, dá meio medo, tudo meio vazio, perfeito demais.
O bairro onde escolhemos morar é mais real, mais vivante (como se diz aqui) perto das universidades, dos colégios onde o Nick provavelmente estude, da Escola Waldorf de Montpellier, do campo de futebol...
E é isso aí! Tudo muito lindo, tudo muito perfeito, mas prefiro a vida, o povão, a bagunça, a juventude, a alegria. E tenho dito!!!!