terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Personagem n° 3: Ângela, a anja espanhola






Muito muito parecida com a Rita Cadilac, o rosto acho, o corpo um pouco também.
Uma fofa.
Carinhosa, atenciosa, ponta firme
. No dia de fazer faxina no prédio, pela manhã, está sempre conversando com a mocinha loira que trabalha no predinho gêmeo da frente, que divide o mesmo portãozinho e o mesmo corredor /jardim de entrada com a gente.
Toda vez que nos encontramos é assim, começamos a "hablar" em espanhol e, do nada, ela passa pro francês e eu sigo. Acontecia assim também com a portuguesa querida de Paris e sua amiga de Bordeaux, começavam a falar em portuguès, depois virava francês, aí voltava pro português e terminava no francês. Acho que acontece assim com muita gente que mora fora, chega uma hora a gente perde um pouco a língua natal, esquece uns termos. Hoje mesmo, pra escrever "prejudicar" no post sobre a Mme Jeannine, tive que olhar no google tradutor, pois só lembrava de "abimer", coisa de quem abusou dos neurônios, ou é assim mesmo e pronto.
Bom, enfim. Ângela fez a paella, Ângela puxou o cordão das danças e aguentou firme até tarde, dançando e animando a galera e no dia seguinte, quando fui na casa do proprietário Marco pra ajudar a limpar as coisas, ela estava lá na pia, feito um furacão, lavando toda a louça da véspera e depois limpou o chão, os vidros, um fenômeno da limpeza, a Angel. O pessoal fala Angel. Mas é o jeito francês de ler Angela mesmo.
Enfim. Mora sozinha, aqui no nosso primeiro andar.
Outro dia fui na casa dela. Ela tinha me pedido emprestado meu carrinho de fazer compras (daqueles de velhinha ir na feira), pois estava com dor nas costas.
Apartamento super fofo.
Almodovar.
Almodovar fofo.
Se é que isso possa existir.
Hoje encontrei com ela de novo. É o dia da faxina na área comum do prédio. Estava muito abalada. um cara subiu na marquise da entrada do prédio e tentou entrar no apartamento dela. Ela conta que gritou muito e o cara fugiu assustado. Mas está bem nervosa.
Prometi um relaxamento, amanhã vamos marcar.
Aqui não é muito comum essa história de ladrões e assaltos e quando acontece as pessoas ficam muito chocadas.
Nem contei que minha mãe já teve uma arma na cara e quatro horas trancada na casa dela enquanto os caras levavam tudo em várias viagens no carro dela.
Nem compensa.
Mas compensa fazer um relaxamento/reiki/jin shin cheio de carinho e luz pra ela ficar boa logo.
E voltar a cuidar desse lugar.
Como sempre fez e faz. Mesmo nervosa, mesmo abalada.
Ela.
A anja.

Personagem n° 2 Amar







Não. Não é o verbo Amar.
É o Sr. Amar. Um árabe que pode ter entre 40, 50 ou 60  e poucos anos, idade indeterminada.
Nascido na Argélia, mudou-se pra Montpellier há alguns tantos anos onde vive até hoje com a mulher e os filhos.
Homem "Bom-bril" é o  "faz tudo" a serviço dos proprietários do predinho onde vivemos.
Ajudou a construir o prédio, pedreiro, encanador, eletricista, marceneiro, carpinteiro, tapeceiro, jardineiro e, na horas vagas, D.J.!
Sim, exatamente.
Conhecemos o Amar no apartamento do proprietário quando viemos pela primeira vez ver o imóvel que tínhamos acessado no site "de particulier a particulier location appartement", indicado pela moça, a princípio chata e fresca de uma imobiliária que nos assegurou que ninguém, a não ser as pessoas desse site, que são os próprios proprietários de imóveis, nos alugaria um imóvel sem termos, fiador, emprego fixo , enfim.
Fumando um cigarro atrás do outro, dentro do apartamento do proprietário, (que também fumava muito, como muita gente aqui), Amar sempre contribuía com uma informação ou um comentário em todos os assuntos. Seja a respeito dos campinhos de futebol do bairro, das escolas públicas, etc e tal, inventando o que não tinha certeza.
Já me simpatizei desde o primeiro momento, com esse árabe de sorriso maroto e olhar perspicaz de menino que teve direito e usufruiu de uma infância de moleque atentado.
Este apartamento, foi o primeiro e único que visitamos.
A prontidão em ajudar do proprietário (que é outro personagem), a presença engraçada de Amar, as visitas breves Mme Jeannine, vizinha do proprietário  e da Ângela,  a anja-espanhola que faz a faxina e mora também no prédio, enfim, todo esse ambiente familiar e acolhedor, fizeram com que eu decidisse por esse apartamento logo de cara e cancelasse todas as outras visitas agendadas com os demais agentes imobiliários que tínhamos contactado.
Mas voltemos ao Amar.
Na segunda semana nossa aqui no encantado imóvel, já fomos avisados que haveria uma Festa de Reis no salão de festas do prédio e que Ângela prepararia uma autêntica paella para deleite de todos!
No dia da festa, atraída pela música, dei uma passada no salão no período da tarde para sapear dar uma "força" pra galera nas arrumações.
Lá estava Amar, entre fios e botões, instalando caixas de som que não desapontariam o Beto Guedes na BoAAAte por ocasião de sua passagem/show em terras ararunas e pucarenas.
Super potente o equipamento.
E Amar, como bom menino "Gabriel Pavo Pavan" crescido que era, testava o som a fundo, no último dos decibéis possíveis, fazendo tremer as estruturas do prédio comprido de um só andar.
"Buena Vista Social Club" era a trilha sonora e aí eu já pude comprovar, mais uma vez, como tinha escolhido bem o local pra fazer nossa vida aqui.
À noite, voltei para o salão, já paramentada com meu vestido herdado da querida e saudosa Marcela Finardi en nosso bazar de trocas e reformado por mim, em minhas divagações artesanais sobre o tema da "selfie costura". Lá chegando me deparei com os demais habitantes do prédio, uma galera pra lá de interessante numa miscelânea de idade, raças, nacionalidades, credos e cores.
Muito legal mesmo. Minha cara, mais uma vez.
Mas voltemos ao Amar. Não o verbo. O super-árabe.
Orgulhosíssimo, atrás de sua mesa de som, manejava os botões de tal forma que era impossível conversar. Potência total! E Amar sorrindo largo, em êxtase!
Aí, a mocinha cigana com seu namorado gordinho sugeriu Gipsy Kings e fomos inundados por uma avalanche de "Jobi-jobá, cada dia que te quiero más!" e todo mundo levantou de seu lugar, deixando a Paella, o vinho, a salada de lado e hop! pro salão dançar!
E nem neste momento, o poder e a supremacia de Deus-Amar deixaram de se fazer notar, pois cada vez que a galera na "pista" se soltava dançando e entrando em delírio, Amar cortava o som, no meio da música mesmo.
Todo mundo olhava pra ele. E ele lá. Com seu sorriso matreiro, mexendo nos botões e mandando outra música, nada a ver com a anterior. Disco anos 80. Músicas árabes. Músicas espanholas. Rap francês. Se a galera começasse a dançar e a se animar..hop! de novo: Amar cortava a música e ria, ria solto. E a gente ria também.
Por falar nisso, faz tempo que ele não aparece por aqui. Estamos esperando. Pra consertar umas coisinhas que estão quebradas desde que entramos no apartamento.
Mas Amar é assim. E aí se faz necessário lembrar da canção de Renato Russo:

" É preciso Amar (e esperar) como se não houvesse amanhã!"

Personagem n°1: Madame Jeannine.

"A vida passa lentamente, e a gente vai tão de repente
tão de repente que nem sente, saudade do que já passou"
(De repente, Califórnia - Nelson Motta)



E de repente me vejo aqui, vivendo uma vida na França, com pessoas vivendo em torno,
Uma vez por semana jogo baralho e tomo chá (não necessariamente na mesma ordem) com a Madame Jeannine, uma senhora de 86 anos que mora num apê no térreo daqui do predinho onde moramos.
Madamme Jeannine é nascida em Montpellier, sobreviveu à Segunda Guerra e tem muitas, muitas histórias pra contar. É poetisa, foi casada três vezes e trabalhou até se aposentar como enfermeira em hospitais e tem três filhos e alguns netos.
Somos amigas. Jogamos baralho, ela conta sua vida, me ensina as gírias, expressões engraçadas e palavrões do sul da França.
E eu vou aprendendo...
Madame Jeannine gosta de falar.
Eu ouço.
Madame Jeannine prefere falar do que ouvir e eu gosto de ouvir as histórias.
Mas às vezes ela fica curiosa e me pergunta sobre minha vida também. Breves momentos.
Além das aventuras de amores e de guerras, da vida de seus filhos, há também as histórias de suas múltiplas cirurgias, de suas dores matinais, de suas brigas com as faxineiras que a agência manda.
Madame Jeannine tem um gênio forte.
Bem forte.
Estou acostumada com gente assim, me lembra minha avó Santa.
Outro dia ela me pediu pra lhe mostrar a agência do Correio pois queria enviar umas cartas. Bom, passei na casa dela e ela já estava pronta, de óculos escuros Matrix, sentada na cadeira de rodas elétrica "power multi rangers plus" que ela usa pra sair pela rua, apesar de se movimentar relativamente bem sobre suas próprias pernas quando está em casa.
Depois de alguns minutos andando com ela pelas calçadas(a passos largos pra acompanhar o ritmo da cadeira voadora)  pude constatar que Mme Jeannine e sua cadeira zumbi constituem um verdadeiro perigo para a humanidade!
Descobri que Deus, além de ser brasileiro, é francês também.
A cidade, este bairro e a França em geral é toda equipada para bicicletas, carrinhos de bebê e cadeiras de rodas, com rampas, ciclovias especiais, etc e tal.
Mas mesmo assim, em alguns momentos, ela decide que a rampinha de acesso da rua pra calçada não está a contento e que a alturinha de desnível entre a rua e a ciclovia poderia prejudicar as engrenagens, ou mesmo suspensões de sua super hiper cadeira turbinada.
E então o caos se faz. Ela maneja a espécie de controle de videogame que tem no braço da cadeira, aperta uns tantos botões de ré e frente e etc e tal, e... tcham e vrummm
E lá vai Mme. Jeannine pelo meio da rua!
Sim, pelo meio da rua mesmo, como se fosse um carro.
Enquanto isso, orgulhosa, ela acelera e me conta que fez uma espécie de auto-escola pra dirigir a tal cadeira e eu, correndo pela calçada ao lado, esbaforida, num silêncio tenso de preocupação e desespero, questiono a eficiência de tal instrutor.
E aí percebo, aliviada e divertida que tudo se arranja com umas  freadas aqui, umas buzinadas ali, e a paciência de outros tantos motoristas abençoados pelo "Deus brasileiro exilado na França" ou talvez por Alá que, pelo que já deu pra perceber, vagueia também por essas terras entre tapetes de orações, bombas e olhares maliciosos no tram.
É bom ter Mme Jeannine por perto.
Se demoro uns dias sem ligar ou aparecer, ela liga:
"Tá viva? Pensei que tivesse morrido em algum canto!".
Eu rio. É bom.
Pensei até em fazer um trabalho voluntário num asilo que vi aqui por perto. A "Casa de Repouso" se chama "Les violettes" (As violetas, nome bem sugestivo pra nós, da Família Fernandes) mas pensei bem e achei melhor não.
Já tenho a Mme Jeannine.
Já tá de bom tamanho.
Vida longa à Mme Jeannine!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Vale a pena ler, ou assistir o vídeo...

http://markmanson.net/brazil


a tradução está neste link


http://markmanson.net/brazil_pt

e no facebook um vídeo da Bel Pesce lendo a tradução


https://www.facebook.com/BelPesce/videos/1252720611422579/?hc_location=ufi

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A missa no Santuário Saint Roch



E ontem, mais uma vez, saí andando, flanando pelas ruelas como sempre aqui por essa cidade medieval.
Passei na frente de uma igreja, entrei: Santuário de Saint Roch (o padroeiro da cidade). Tem a Catedral São Roque, imponente e alto e o Santuário, fofinho entre becos e ruelas.
Nem fiz os três pedidos, esqueci. Também, tá tudo tão dando certo, tá tudo pedido, tá tudo concedido! Deus sabe o que precisamos antes mesmo de pedirmos,, já diz a lenda...
E aí a missa ia começar, estavam ajustando os microfones, acendendo as luzes e afinando o órgão e as vozes e aí fui ficando, assisti a missa, falei tudo em português e cantei músicas em português baixinho na hora do ofertório ("Receba , ò Senhor a nossa oferta que será então ,na certa o seu próprio ser")>
Na hora do” Santo Santo Santo, Senhor Deus do Universo”, encaixei a música “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será acrescentado Aleluia Aleluia!” numa hora nada a ver, só pra cantá-la baixinho, rsrs
E na hora da comunhão, eu comunguei. Comunguei pela primeira vez desde a separação. Aqui me sinto digna de comungar. Aqui não sou separada. Aqui foda-se, ninguém sabe e eu comunguei.
Na comunhão o padre-mor dava a hóstia e depois, ao lado, um coroinha chinês jovem segurava um cálice com vinho.
Fiquei observando. Algumas pessoas bebiam na taça dourada e aí o jovem chinês limpava a “baba” com um pano sagrado e eu ficava me perguntando se o vinho ia dar pra todo mundo. Mas aí  outras pessoas só  “tchotchavam” a hóstia no cálice. Eu preferi “tchotchar”, fiquei com nojinho...
Os que bebiam, bebiam todos naquele mesmo cálice, tipo "microbiagem" mesmo. Todos do mesmo cálice, o sangue de Cristo. Gosto dessa galera meio “foda-se” praquele excesso de higiene e nojo que o Brasil inventou de ter agora, importando dos EUA essa higienização das relações e dos ambientes. É como um vírus, o vírus de ter nojo. Acho que peguei um pouquinho esse vírus, rsrs.
E rezei o pai nosso em português mas prestando atenção ao jeito francês de rezar “Père nôtre (...), pardonez nos ofenses...”  
Na hora da “Paz de Cristo” me emocionei. Me emocionei “aux larmes”.
Dar a mão a todas essas pessoas, desejar a paz... e desejei a paz de cristo às pessoas em torno, à negra de peruca loira, ao casal de idosos, ao senhor que o telefone tinha tocado e ele não conseguia desligar, às mocinhas branquinhas que nem davam a mão direito....Mais adiante tinha também mais negros, um japonês, um casal de chineses, um casal de ocidentais, talvez franceses e mais uma galerinha que tanto podia ser francesa, como europeus em geral pelos traços e pela cor...
E foi bom ter ido à Igreja. Meu berço religioso, minha religiosidade mãe é o catolicismo, mesmo que eu fique atéia de vez em quando, ou budista, ou espírita, ou umbandista. A missa é o colo da minha religiosidade e me traz conforto e paz. Mesmo que eu esteja confortada e em paz. Mesmo assim é bom.
Depois saí de novo pelas ruelas "mediebelas" e passei na frente do consultório que tem umas salas pra alugar. Era pertinho de lá. E ao lado tem um restaurante chinês. Menu a 9.50 euros. Almocei lá. Como quem almoça no bairro. O bairro do consultório. e desci e virei a esquina e vi que tem uns barzinhos, restaurantezinhos bem legais por lá. E descendo já é o Observatoire. E pronto, o ponto do Tram pra voltar pra casa! 
Ponto e Pronto!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

FUNCIONÁRIOS BESTAS - E É PORQUE É MÊMO!!!

Eita povinho besta!
Uma graça, liberdade, igualdade, cultura literatura, etc e bla e tal e blá
Mas fraternidade nada! E aí tem hora que a gente tem que mostrar os caninos, assim bem expostos mesmo, com um sorrisinho Drizotti no final, tipo morde e assopra e agora, hop!
Parece que as coisas começam a funcionar!
Esse cartão de crédito que não chegava, e esse idiotinha do banco, todo estressadinho e engomadinho que me enrolava. E eu humilde e eu sorrisinho como sempre.
Ah, mas não agora
Agora não mais
Fui lá essa semana. Cheguei com meu ar 437, modelo, acessora do presidente dos Estados Unidos.
Falei com uma outra senhora, mal cumprimentei o idiota e disse que talvez feche a conta, que era um absurdo demorar mais de um mês pra ter um cartão de crédito e aí essa outra disse que se eu fizesse um seguro do apê que liberava e que “como a senhora não tem um seguro da casa? Ainda mais em Montpellier!” tchu tchu tchu bla blabla
E aí eu falei que era realmente um absurdo ter que fazer um seguro pra liberar algo que é de direito meu e etc e que se fosse fazer seguro nem sabia se faria lá porque queria pesquisar os preços e etc e tal.
E que além disso eu já tinha pensado até em fechar a conta nesse banco porque era inadmissível o que estava acontecendo. E que eu não domino a língua e isso me coloca em inferioridade perante a situação,
Aí ela que tinha começado a ameaçar ficar bestinha também, colocou o rabinho no meio da perna e disse que eu falo muito bem francês e risadinhas e simpatiquinha e “oui oui oui”.
E eu disse que não bem o suficiente pra me impor da maneira que gostaria, com minha cara de “diretora de escola dos anos 50”. Talvez uma das sombrancelhas levantadas pra impressionar mesmo.
E aí tinha esse papel do correio que não chegava. E aí o bonhomme passa e “Bonjour Madamme, ça vá?” e eu de sorriso amarelo cor de bosta de recém nascido e ele explica e eu lá, em cima do meu tamanco de bahiana, emprestado de alguma entidade arretada que me acompanhava naquele momento. E então eu tinha que ir no correrio com o papel do recibo.
Aí venho pra casa, pego algo que se assemelha com o tal papel, vou até o correio embaixo de chuva e não era aquele papel. Lógico. O tal papel tinha ficado no banco com o engomadinho. Ainda bem que o funcionário do correio era um fofo e já foi várias vezes pro Brasil e ainda me ensinou a usar a máquina de pesar cartas e calcular o valor e receber moedas automaticamente que tem lá. E eu mandei um cartão postal pra vó do Nick que tem 90 anos e mora na Bélgica. E passei na padoca da moça simpática e comprei croissants pro Nick e voltei pra casa bela e formosa e chovia menos.
Passei o dia de ontem ignorando essa situação. Feito pão. Que a gente não mexe e deixa crescer pra ver o que deu. Fiz comidas, escrevi, fiz uma baita faxina na casa, fui ao supermercado e vida normal. E quem disse que eu queria um cartão de débito? E foda-se.
Aí hoje, acordo bem, sem dores no pescoço e na cabeça (depois dos dois Tandrilax de ontem de de antes de ontem. e sem azia nem dores no estômago pós Tandrilax graças ao chá de gengibre com maça e ao jejum de café).
E acordo o Nick e sirvo o leite e digo tchau boa aula e lavo roupas, cozinho um almoço bem gostosinho pro meu Nick. E ele vem e ele vai de novo porque a escola tem aula a tarde também. E tomo um banho, deito no sol da tarde delícia que entra pelo vidro da janela de meu quarto iluminando a cama, durmo e aí ligo pro tar do Zé Mané do banco. O tal do engomadinho. Estava em reunião. Disse que me ligaria mais tarde.
E eis que pronto! Acabou de ligar e me pergunta se tenho uma carteira de identidade brasileira. Eu digo que sim. Então que vá até lá amanhã e fale com ele. Mas tem que ser com ele pq outra pessoa não irá me entregar o cartão.
Ah! Ah! Ah!
Então tá.
Então merci beaucoup, monsieur le renard, anão de jardim.
Pronto.
Aprendeu a trabalhar nesse meio tempo ? que bom!
Amanhã tô aí.
E brigada, merci bocú (cú cuú mesmo) por me ensinar como tratar os tipinhos e  tiposas como vocês daqui pra frente.
O segredo é o seguinte. Porcos capitalistas a gente conserva no chiqueiro de nossas relações e a galera humilde e simples, com brilho no olhar e sorriso nos lábios, a gente guarda com carinho no mais fundo de nosso coração.
E é isso.

”E é porque é mêmo. E eu num tô aqui pra fazer jardinho não!! Pranto e pronto!” 

ESTADO LAICO: NÃO EXISTE PECADO DO LADO DE CIMA DO EQUADOR

Estado Laico funcionando do jeito que precisa ser. To gostando disso!
Na escola do Nick não pode entrar de boné, nem de gorro, nem chapéu, nem burca, nem turbante. Cabeça descoberta. Estado laico. Religião da porta pra fora da escola.
Bom isso.
Enquanto isso, eu, devota de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Miguel Arcanjo e São João Evangelista, e é claro, dando um alô de quando em vez pra Nossa Senhora Desatadora dos Nós, Santo Expedito e o Anjo da Guarda, eu, Adriana Dezotti Fernandes, deixo minha fé no travesseiro, nas imagens do criado mudo e em meu coração cristão, permitindo que meu cérebro raciocine com os meios que ele tem: lógica, memória, aprendizado e deduções, frutos de armazenagens e  massagens na massa cinzenta, dita pensante. Fica mais fácil assim. Ado, a ado, cada um no seu quadrado.
Assim não queimamos bruxas
Assim não explodimos discotecas, praças e botecos.
Assim não deturpamos o que é de todos.
Respeitando o que é de cada um, seja a religião, o ateísmo ou a vontade de não ter uma opinião formada sobre tudo.
Liberdade é isso. Uma escola que ensina o que deve ser ensinado em uma escola. A história de seu país e do mundo, o idioma usado pela população de tal país, assim como a produção literária e as regras pra se escrever em tal língua. Mais duas línguas estrangeiras. Matemática, ciências, etc e tal.
A religião será então divulgada e praticada pelos adeptos nos locais designados pra tais atividades, sejam igrejas, mosteiros, mesquitas ou templos determinados pra tal fim, (inúmeros, múltiplas opções de escolha). Ou pode ser cultivada na família. Ou não.
Muito prático.
Muito eficiente.
Muito bom!
Minha lógica parece funcionar melhor num país assim.

(E minha fé, diga-se de passagem, tem se fortalecido cada dia mais, nesse mundão de meu Deus!)

domingo, 17 de janeiro de 2016

UM SÁBADO À TARDE SOBRE A TERRA...

Lá fora, três espécies de pinheiros, árvores que perderam suas folhas nos invernos, imensas gralhas brancas e negras no gramado da grande casa de pedra do vizinho.
E tem o vento. E o sol.
Sempre o sol nesse sul da França abençoado.
E o filho fazendo trabalho de espanhol na médiatheque de Mosson com os amigos de escola.
Ele já tem dois amigos franceses, um amigo negão que passou a vida na China e o árabe pequenino, todo confiante.
E cá estamos nós. No meio desse “rédemunho”: entre negões cidadões do mundo, árabes machistas que “se acham”, mulheres de cabeça coberta simpáticas e sorridentes e que me observam curiosas e franceses e francesas que têm a República como orgulho e como símbolo a bela Mariane, mostrando as tetas, e a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade como princípios máximos e absolutos (só que não e vamos descobrir, juntos, até que ponto),
Ontem saímos de nossa periferia árabe e pós moderna e fomos dar um rolê pelo lado antigo e medieval da cidade. São duas dimensões completamente diferentes. Aqui são os predinhos dos anos 70 e 80, baixos, de um, dois, no máximo três andares (acho que devido àquele papo do Luis XIV que fez uma lei que não poderiam ser construídos edifícios mais altos que a Promenade de Peyrou etc e tal ou se simplesmente é uma lei urbana aqui (e na França em geral) mas o que conta é que os prédios são baixos, feito Praia Grande de Ubatuba, ou Tenório ou Itaguá.
Apesar do sol, do céu azul, dos pinheiros e dos pássaros à prova de frio. Faz frio, muito frio pra nossa pele de brasil. Cinco graus. No sol.
As aves que aqui gorjeiam, definitivamente, não gorjeiam como no Brasil. Mas é um som legal. Um gorgeio bom. Será que gorgeio vem de gorge que quer dizer garganta em français? Surement. Com certeza e com cerveja.
Só sei que tô bem.
É bom estar aqui, longe de tudo e de todos. Blancheur. S’éffacer du monde.
David le Breton, no livro “DisparaÎtre de soi” analisa isso. Me analisa. Querer sumir sem morrer. Simplesmente se dar o direito de recomeçar. Se reinventar.
E o vento ventando “e o nó na madeira, festa da cumeeira”. Como a festa no telhado da casa do Plá. “Pedra de atiradeira.”
E a vida tá boa aqui. Simples e boa. De cozinhar e lavar roupas e estender e dobrar e comprar coisas pra cozinhar e esperar o filho e escrever e socializar com a vizinhança do prédio aqui. Super gente boa. Nem frios. Nem entrões. 
Aleluia, hosana nas alturas. Êpa hey meu pai!

Tudo sob controle
E tem eu
E a casa
E as coisas
E esse note
Onde I note
E anoto
As palavras que dizem de mim
De minha vida de agora
O note
Anote ando
A note ado
De noite e de dia
Sempre
Sem sábados
Sem obrigações
Só sendo
E sendo só.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Corconne

Corconne, uma cidadezinha a 38 km ao norte de Montpellier com montanhas, pedras e uma vegetação tipo cerrado que lembra muito São Thomé...
hajam letras pra descrever a sensação de inteireza e tranquilidade ao me dar conta de que o planeta inteiro é um só canteiro de flores e, como diz Zé Geraldo: "uma parte do mundo é nossa morada e a outra parte é nosso quintal"!



E como dizia Tom Jobim...



Um ano após o atentado na redação do jornal "Charlie Hebdo", a tv e os jornais, só falam nisso. Tipo Globo, SBT, Record, sensacionalisando e meio que apavorando a gente.
Comprei o jornal de ontem (imagem da capa anexada abaixo) e já li quase inteiro. Dessa vez eles provocam os católicos...
Eles continuaram a publicar e dos 10 mil assinantes que tinham no começo de janeiro de 2015, passaram a ter 220 mil após os atentados. Essa edição de um ano do que eles chamam de "carnificina" traz depoimentos dos sobreviventes e poemas de pessoas famosas como Isabelle Adjani, Charlotte Gainsbourg e Juliette Binoche, entre outros. Todos defendendo o direito da liberdade de expressão e do Estado Laico.
Não sei o que pensar. Ano passado, quando aconteceu, eu estava no Brasil e pensei que não era nada legal ficar zombando da religião alheia, mas também que nada, nunca nesse mundo justificaria a atitude dos irmãos Kouachi, disparando cerca de sessenta tiros numa sala de 20 mts² para defender a honra de Alá.
Hoje, aqui, penso que, realmente, essa liberdade de expressão conquistada e mantida pela França até os dias de hoje é uma preciosidade e se curvar a bárbaries como essa seria, mudando o comportamento, de certa forma, abrir mão desses direitos.
Como estrangeiros brasileiros, contamos com um acolhimento e uma simpatia inesperados por mim, que tinha vivido ilegalmente na Paris dos anos 90 e tinha sentido na pele o que é ser um imigrante. As pessoas dos serviços públicos, das escolas, enfim, as pessoas em geral são muito carinhosas e simpáticas com a gente aqui, gostam do nosso sotaque, suspiram nostálgicos quando explicamos que somos do Brasil.
Mas basta uma pequena situação, como ver o filho indo pra escola sem conhecer ninguém, ou ter que comprar um bilhete de tram e não ter moedas certas pq a máquina não dá troco ou tirar uma foto 3 X 4 numa máquina automática e não conseguir fazer com que funcione, que já nos sentimos menos empodeirados, meio que desamparados...
Mas, e os demais imigrantes? como são acolhidos? como são tratados? Como lidam com a tecnologia onde as pessoas foram substituídas por máquinas?
Todos os terroristas, até hoje, eram pessoas que nasceram na frança, filhos de pais árabes... de certa forma, são como aqueles adolescentes norte-americanos que atiram nos colegas de escola que fizeram bullying com eles. Talvez aqui seja como se todo o país fizesse uma espécie de bullying com os estrangeiros, apesar de acolhê-los oficialmente.
Bom, enfim. Terror à parte, as pessoas estão por aqui, pelas ruas, indo e vindo, continuando suas vidas, ... e nós também!
Seja sob o manto de Nossa Senhora Aparecida, sob os olhos de Alá ou sob a lógica positiva do ateísmo.
No fundo, é como dizia Tom Jobim:
"Viver no exterior é bom, mas é uma merda.
Viver no Brasil é uma merda, mas é bom".
(Antonio Carlos Jobim)