quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Desejo - Victor Hugo

"Desejo primeiro que você ame, E que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim, Mas se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos, Que mesmo maus e inconseqüentes, Sejam corajosos e fiéis, E que pelo menos num deles Você possa confiar sem duvidar. E porque a vida é assim, Desejo ainda que você tenha inimigos. Nem muitos, nem poucos, Mas na medida exata para que, algumas vezes, Você se interpele a respeito De suas próprias certezas. E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo, Para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo depois que você seja útil, Mas não insubstituível. E que nos maus momentos, Quando não restar mais nada, Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo ainda que você seja tolerante, Não com os que erram pouco, porque isso é fácil, Mas com os que erram muito e irremediavelmente, E que fazendo bom uso dessa tolerância, Você sirva de exemplo aos outros. Desejo que você, sendo jovem, Não amadureça depressa demais, E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer E que sendo velho, não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e É preciso deixar que eles escorram por entre nós. Desejo por sinal que você seja triste, Não o ano todo, mas apenas um dia. Mas que nesse dia descubra Que o riso diário é bom, O riso habitual é insosso e o riso constante é insano. Desejo que você descubra , Com o máximo de urgência, Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos, Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta. Desejo ainda que você afague um gato, Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro Erguer triunfante o seu canto matinal Porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, Por mais minúscula que seja, E acompanhe o seu crescimento, Para que você saiba de quantas Muitas vidas é feita uma árvore. Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, Porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano Coloque um pouco dele Na sua frente e diga "Isso é meu", Só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, Por ele e por você, Mas que se morrer, você possa chorar Sem se lamentar e sofrer sem se culpar. Desejo por fim que você sendo homem, Tenha uma boa mulher, E que sendo mulher, Tenha um bom homem E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes, E quando estiverem exaustos e sorridentes, Ainda haja amor para recomeçar. E se tudo isso acontecer, Não tenho mais nada a te desejar ".

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Não se abandone

"Não, não fuja não Finja que agora eu era o seu brinquedo Eu era o seu pião O seu bicho preferido Vem, me dê a mão A gente agora já não tinha medo No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido" (João e Maria - Chico Buarque)

domingo, 28 de dezembro de 2014

E esse ano que não termina...

Adeus! A Deus. Vai com Deus, ano velho! Muitas conquistas. Muitas risadas. Muitas mudanças. Muitas idas, muitas vindas, pra depois de novo ir. Ano é sempre assim: passa rápido pra depois tardar, se demorar, desacelerar e nunca que acaba! Vai ano, vai cumprindo sua sina de terminar assim, vagarosamente, infinitamente. Enquanto isso, eu, vagarosa, infinita, tardo e ardo nesse fim que não finda.

Jesus Numa Moto (Sá, Rodrix & Guarabyra)

Preso nessa cela De ossos, carne e sangue Dando ordens a quem não sabe Obedecendo a quem tem. Só espero a hora Nem que o mundo estanque Prá me aproveitar do conforto De não ser mais ninguém. Eu vou virar a própria mesa Quero uivar numa nova alcateia Vou meter um Marlon Brando" nas idéias E sair por aí. Prá ser Jesus numa moto Che Guevara dos acostamentos Bob Dylan numa antiga foto Cassius Clay antes dos tratamentos John Lennon de outras estradas Easy Rider, dúvida e eclipse São Tomé das letras apagadas E arcanjo Gabriel sem apocalipse. Nada no passado Tudo no futuro Espalhando o que já está morto Pro que é vivo crescer Sob a luz da lua Mesmo com sol claro Não importa o preço que eu pague O meu negócio é viver. https://www.youtube.com/watch?v=WgqXEugkEYQ

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

No dia em que despertei

No dia em que despertei - Senti dor - Meus olhos doeram com a luz - Minhas pernas doíam por falta de movimento - A base de minhas asas também doíam por ter ficado tanto tempo sem voar. No dia em que despertei - Confundi dor com saudade - Luz com cegueira - E senti medo da liberdade - No dia em que despertei - Seu rosto se desfez - Diante de meus olhos - Virou papier machê - De um teatro de fantoches - Dos contos de fadas - Injetados por minha vó em meu cérebro - No dia em que despertei - Percebi que só tinha sobrado - O que sempre tinha sido: - Uma quantidade enorme de “amor pra dar” - Transbordando em meu peito - Desde sempre e sempre mais.

Moço do espaço

"emprestei meus olhos * pro moço que passava ali * passou um tempo e me devolveu agradecido * contou que viu um monte de gente querida * viu crianças rindo, flores se abrindo... e eu agora * dei de ver estrelas!
gratidão, moço do Espaço..." (Drizotti)

Anjo distraído

deixei um anjo levar - minha alma pra passear - ele voou alto - voou baixo - e depois pousou. - mas pousou longe daqui - meus pés estão cansados... tem algum motoboy aí? (Drizotti)

Parafusos faltando...

levei meu cérebro pra consertar - na loja de eletrônicos - faltavam peças, sobravam fios - o senhor me falou - que não ia ficar como antes - mas que dava um jeitinho - e não é que deu? (Drizotti)

Coração descolorido

"botei meu coração * pra lavar na máquina. * exagerei no varek * esqueci do amaciante * e agora?" (Drizotti)

Varal da vida

"e enquanto o tempo não faz * eu vou me esperando * eu vou me secando * pendurada docemente * no varal da vida" * (Drizotti)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O GUARDADOR DE REBANHOS ( 1.914 ) - Fernando Pessoa

Escrito em uma noite de insônia há exatos 100 anos, “ O Guardador de Rebanhos “ é um dos mais lindos poemas de todos os tempos. Eterno !!! . Num meio dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia Vi Jesus Cristo descer à terra, Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu... Ele mora comigo na minha casa... Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Eterna acompanha-me sempre. Vivemos juntos a dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa, Graves como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo o universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la cair no chão. Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens E ele sorri, porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis... Depois ele adormece e eu deito-o Levo-o ao colo para dentro de casa Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos, Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu no colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é.

Nietzsche

"Oh, como somos felizes, nós, homens do conhecimento, desde que saibamos manter silêncio por algum tempo!... (NIETZSCHE, Genealogia da Moral)

Ventilador

A alma acalma quando o vento passa e mostra que tudo é ilusão A alma salta Quando a brisa chega e traz música e aromas pro meu coração. Como um ventilador eletricizo com vento, a dor.

FALDUCAÇÃO

Negar a fluidez, negar a luz, a leveza e a sequência natural das coisas é falducação com Deus. É desrespeito, é desobediência, é falducação. Pra que prender, tentar controlar o incontrolável, tentar possuir o impossuível, tentar aprisionar o que é livre e fluido? Desrespeito. Desobediência. Falducação. Deixe rolar, deixe fluir, deixe acontecer. Qualquer coisa, além disso, é falducação.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A AMIZADE E O COSMO

Você se atira no cosmo E a rede de amigos te segura Você mergulha pra baixo E a rede Infinita Fechada E segura de amigos Te acolhe Você relaxa o corpo E a rede de amigos te segura, Docemente, Como um colo cósmico Araras, 20 de maio de 2008

Claricices

Claricices me invadem Não. Me povoam lentamente Clarice me inspira Me expira Me ajuda a respirar Esvaziada de mim Encontro em Clarice Lispector Um preenchimento possível Um esvaziamento tangível Uma maneira de ser Ser mulher Ser viva Ser escritora Quem sabe um dia... Meu pai e Clarice Mostram-me o mar E eu Quedo-me Estática Diante do Ser que é o Mar Sendo Indo Vindo Sempre Parece que o mar é muito Me aproximo devagar Meu coração é pouco Pra tanto mar Clarice, Fernandão e o mar Me ensinando A ser (21 de janeiro de uns anos atras, à tarde de sol à pino em Itamambuca)