sexta-feira, 27 de julho de 2012

Meditações Caipiras I

tem dias em que acordo assim melancólica e quieta e a tristeza se aproxima qual gato dengoso se enroscando em minhas pernas sem miar... o ferro de passar roupa a tábua, o lençol branquinho me transportam pra um outro mundo um mundo onde os pensamentos podem ser passados até silenciarem um mundo onde o vai e vem do ferro vai deixando um rastro liso com um cheirinho de ordem e assim me ordeno roupas na máquina roupas sob o sol no varal café no bule fumaças e aromas e a tristeza vira quietude a solidão, solitude e viver fica gostoso e leve... (então penso, olhando pela janela: "ainda bem que não assisto novela!")

Aos lixeiros

Acabei de ganhar um sorriso largo e luminoso emoldurado por um par de bochechas negras detrás do volante de um caminhão de lixo da prefeitura. Admiro os lixeiros tenho por eles uma reverência quase devota Eles, com sua agilidade e alegria recolhem nossos dejetos nossos segredos nosso desperdício nossa vergonha como quem colhe feixes de trigo em sacos em cacos de vida e de morte. Acho que toda cidade deveria levantar uma estátua um portal, um monumento ao lixeiro desconhecido ao Cristo risonho de cada dia que se encarrega com dignidade e leveza de esconder, pra longe de nossos olhos e narizes toda nossa feiúra, todo nosso fedor, toda nossa podridão civilizada.