Eita povinho besta!
Uma graça, liberdade, igualdade,
cultura literatura, etc e bla e tal e blá
Mas fraternidade nada! E aí tem hora
que a gente tem que mostrar os caninos, assim bem expostos mesmo, com um
sorrisinho Drizotti no final, tipo morde e assopra e agora, hop!
Parece que as coisas começam a
funcionar!
Esse cartão de crédito que não
chegava, e esse idiotinha do banco, todo estressadinho e engomadinho que me
enrolava. E eu humilde e eu sorrisinho como sempre.
Ah, mas não agora
Agora não mais
Fui lá essa semana. Cheguei com meu
ar 437, modelo, acessora do presidente dos Estados Unidos.
Falei com uma outra senhora, mal
cumprimentei o idiota e disse que talvez feche a conta, que era um absurdo
demorar mais de um mês pra ter um cartão de crédito e aí essa outra disse que
se eu fizesse um seguro do apê que liberava e que “como a senhora não tem um
seguro da casa? Ainda mais em Montpellier!” tchu tchu tchu bla blabla
E aí eu falei que era realmente um
absurdo ter que fazer um seguro pra liberar algo que é de direito meu e etc e
que se fosse fazer seguro nem sabia se faria lá porque queria pesquisar os
preços e etc e tal.
E que além disso eu já tinha pensado
até em fechar a conta nesse banco porque era inadmissível o que estava
acontecendo. E que eu não domino a língua e isso me coloca em inferioridade
perante a situação,
Aí ela que tinha começado a ameaçar
ficar bestinha também, colocou o rabinho no meio da perna e disse que eu falo
muito bem francês e risadinhas e simpatiquinha e “oui oui oui”.
E eu disse que não bem o suficiente
pra me impor da maneira que gostaria, com minha cara de “diretora de escola dos
anos 50”. Talvez uma das sombrancelhas levantadas pra impressionar mesmo.
E aí tinha esse papel do correio que
não chegava. E aí o bonhomme passa e “Bonjour Madamme, ça vá?” e eu de sorriso
amarelo cor de bosta de recém nascido e ele explica e eu lá, em cima do meu
tamanco de bahiana, emprestado de alguma entidade arretada que me acompanhava
naquele momento. E então eu tinha que ir no correrio com o papel do recibo.
Aí venho pra casa, pego algo que se assemelha
com o tal papel, vou até o correio embaixo de chuva e não era aquele papel.
Lógico. O tal papel tinha ficado no banco com o engomadinho. Ainda bem que o
funcionário do correio era um fofo e já foi várias vezes pro Brasil e ainda me
ensinou a usar a máquina de pesar cartas e calcular o valor e receber moedas
automaticamente que tem lá. E eu mandei um cartão postal pra vó do Nick que tem
90 anos e mora na Bélgica. E passei na padoca da moça simpática e comprei
croissants pro Nick e voltei pra casa bela e formosa e chovia menos.
Passei o dia de ontem ignorando essa
situação. Feito pão. Que a gente não mexe e deixa crescer pra ver o que deu. Fiz
comidas, escrevi, fiz uma baita faxina na casa, fui ao supermercado e vida
normal. E quem disse que eu queria um cartão de débito? E foda-se.
Aí hoje, acordo bem, sem dores no
pescoço e na cabeça (depois dos dois Tandrilax de ontem de de antes de ontem. e
sem azia nem dores no estômago pós Tandrilax graças ao chá de gengibre com maça
e ao jejum de café).
E acordo o Nick e sirvo o leite e
digo tchau boa aula e lavo roupas, cozinho um almoço bem gostosinho pro meu
Nick. E ele vem e ele vai de novo porque a escola tem aula a tarde também. E tomo
um banho, deito no sol da tarde delícia que entra pelo vidro da janela de meu
quarto iluminando a cama, durmo e aí ligo pro tar do Zé Mané do banco. O tal do
engomadinho. Estava em reunião. Disse que me ligaria mais tarde.
E eis que pronto! Acabou de ligar e
me pergunta se tenho uma carteira de identidade brasileira. Eu digo que sim.
Então que vá até lá amanhã e fale com ele. Mas tem que ser com ele pq outra
pessoa não irá me entregar o cartão.
Ah! Ah! Ah!
Então tá.
Então merci
beaucoup, monsieur le renard, anão de jardim.
Pronto.
Aprendeu a trabalhar nesse meio
tempo ? que bom!
Amanhã tô aí.
E brigada, merci bocú (cú cuú mesmo)
por me ensinar como tratar os tipinhos e tiposas como vocês daqui pra frente.
O segredo é o seguinte. Porcos
capitalistas a gente conserva no chiqueiro de nossas relações e a galera
humilde e simples, com brilho no olhar e sorriso nos lábios, a gente guarda com
carinho no mais fundo de nosso coração.
E é isso.
”E é porque é mêmo. E eu num tô aqui
pra fazer jardinho não!! Pranto e pronto!”



