quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

FUNCIONÁRIOS BESTAS - E É PORQUE É MÊMO!!!

Eita povinho besta!
Uma graça, liberdade, igualdade, cultura literatura, etc e bla e tal e blá
Mas fraternidade nada! E aí tem hora que a gente tem que mostrar os caninos, assim bem expostos mesmo, com um sorrisinho Drizotti no final, tipo morde e assopra e agora, hop!
Parece que as coisas começam a funcionar!
Esse cartão de crédito que não chegava, e esse idiotinha do banco, todo estressadinho e engomadinho que me enrolava. E eu humilde e eu sorrisinho como sempre.
Ah, mas não agora
Agora não mais
Fui lá essa semana. Cheguei com meu ar 437, modelo, acessora do presidente dos Estados Unidos.
Falei com uma outra senhora, mal cumprimentei o idiota e disse que talvez feche a conta, que era um absurdo demorar mais de um mês pra ter um cartão de crédito e aí essa outra disse que se eu fizesse um seguro do apê que liberava e que “como a senhora não tem um seguro da casa? Ainda mais em Montpellier!” tchu tchu tchu bla blabla
E aí eu falei que era realmente um absurdo ter que fazer um seguro pra liberar algo que é de direito meu e etc e que se fosse fazer seguro nem sabia se faria lá porque queria pesquisar os preços e etc e tal.
E que além disso eu já tinha pensado até em fechar a conta nesse banco porque era inadmissível o que estava acontecendo. E que eu não domino a língua e isso me coloca em inferioridade perante a situação,
Aí ela que tinha começado a ameaçar ficar bestinha também, colocou o rabinho no meio da perna e disse que eu falo muito bem francês e risadinhas e simpatiquinha e “oui oui oui”.
E eu disse que não bem o suficiente pra me impor da maneira que gostaria, com minha cara de “diretora de escola dos anos 50”. Talvez uma das sombrancelhas levantadas pra impressionar mesmo.
E aí tinha esse papel do correio que não chegava. E aí o bonhomme passa e “Bonjour Madamme, ça vá?” e eu de sorriso amarelo cor de bosta de recém nascido e ele explica e eu lá, em cima do meu tamanco de bahiana, emprestado de alguma entidade arretada que me acompanhava naquele momento. E então eu tinha que ir no correrio com o papel do recibo.
Aí venho pra casa, pego algo que se assemelha com o tal papel, vou até o correio embaixo de chuva e não era aquele papel. Lógico. O tal papel tinha ficado no banco com o engomadinho. Ainda bem que o funcionário do correio era um fofo e já foi várias vezes pro Brasil e ainda me ensinou a usar a máquina de pesar cartas e calcular o valor e receber moedas automaticamente que tem lá. E eu mandei um cartão postal pra vó do Nick que tem 90 anos e mora na Bélgica. E passei na padoca da moça simpática e comprei croissants pro Nick e voltei pra casa bela e formosa e chovia menos.
Passei o dia de ontem ignorando essa situação. Feito pão. Que a gente não mexe e deixa crescer pra ver o que deu. Fiz comidas, escrevi, fiz uma baita faxina na casa, fui ao supermercado e vida normal. E quem disse que eu queria um cartão de débito? E foda-se.
Aí hoje, acordo bem, sem dores no pescoço e na cabeça (depois dos dois Tandrilax de ontem de de antes de ontem. e sem azia nem dores no estômago pós Tandrilax graças ao chá de gengibre com maça e ao jejum de café).
E acordo o Nick e sirvo o leite e digo tchau boa aula e lavo roupas, cozinho um almoço bem gostosinho pro meu Nick. E ele vem e ele vai de novo porque a escola tem aula a tarde também. E tomo um banho, deito no sol da tarde delícia que entra pelo vidro da janela de meu quarto iluminando a cama, durmo e aí ligo pro tar do Zé Mané do banco. O tal do engomadinho. Estava em reunião. Disse que me ligaria mais tarde.
E eis que pronto! Acabou de ligar e me pergunta se tenho uma carteira de identidade brasileira. Eu digo que sim. Então que vá até lá amanhã e fale com ele. Mas tem que ser com ele pq outra pessoa não irá me entregar o cartão.
Ah! Ah! Ah!
Então tá.
Então merci beaucoup, monsieur le renard, anão de jardim.
Pronto.
Aprendeu a trabalhar nesse meio tempo ? que bom!
Amanhã tô aí.
E brigada, merci bocú (cú cuú mesmo) por me ensinar como tratar os tipinhos e  tiposas como vocês daqui pra frente.
O segredo é o seguinte. Porcos capitalistas a gente conserva no chiqueiro de nossas relações e a galera humilde e simples, com brilho no olhar e sorriso nos lábios, a gente guarda com carinho no mais fundo de nosso coração.
E é isso.

”E é porque é mêmo. E eu num tô aqui pra fazer jardinho não!! Pranto e pronto!” 

ESTADO LAICO: NÃO EXISTE PECADO DO LADO DE CIMA DO EQUADOR

Estado Laico funcionando do jeito que precisa ser. To gostando disso!
Na escola do Nick não pode entrar de boné, nem de gorro, nem chapéu, nem burca, nem turbante. Cabeça descoberta. Estado laico. Religião da porta pra fora da escola.
Bom isso.
Enquanto isso, eu, devota de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Conceição, São Jorge, São Miguel Arcanjo e São João Evangelista, e é claro, dando um alô de quando em vez pra Nossa Senhora Desatadora dos Nós, Santo Expedito e o Anjo da Guarda, eu, Adriana Dezotti Fernandes, deixo minha fé no travesseiro, nas imagens do criado mudo e em meu coração cristão, permitindo que meu cérebro raciocine com os meios que ele tem: lógica, memória, aprendizado e deduções, frutos de armazenagens e  massagens na massa cinzenta, dita pensante. Fica mais fácil assim. Ado, a ado, cada um no seu quadrado.
Assim não queimamos bruxas
Assim não explodimos discotecas, praças e botecos.
Assim não deturpamos o que é de todos.
Respeitando o que é de cada um, seja a religião, o ateísmo ou a vontade de não ter uma opinião formada sobre tudo.
Liberdade é isso. Uma escola que ensina o que deve ser ensinado em uma escola. A história de seu país e do mundo, o idioma usado pela população de tal país, assim como a produção literária e as regras pra se escrever em tal língua. Mais duas línguas estrangeiras. Matemática, ciências, etc e tal.
A religião será então divulgada e praticada pelos adeptos nos locais designados pra tais atividades, sejam igrejas, mosteiros, mesquitas ou templos determinados pra tal fim, (inúmeros, múltiplas opções de escolha). Ou pode ser cultivada na família. Ou não.
Muito prático.
Muito eficiente.
Muito bom!
Minha lógica parece funcionar melhor num país assim.

(E minha fé, diga-se de passagem, tem se fortalecido cada dia mais, nesse mundão de meu Deus!)

domingo, 17 de janeiro de 2016

UM SÁBADO À TARDE SOBRE A TERRA...

Lá fora, três espécies de pinheiros, árvores que perderam suas folhas nos invernos, imensas gralhas brancas e negras no gramado da grande casa de pedra do vizinho.
E tem o vento. E o sol.
Sempre o sol nesse sul da França abençoado.
E o filho fazendo trabalho de espanhol na médiatheque de Mosson com os amigos de escola.
Ele já tem dois amigos franceses, um amigo negão que passou a vida na China e o árabe pequenino, todo confiante.
E cá estamos nós. No meio desse “rédemunho”: entre negões cidadões do mundo, árabes machistas que “se acham”, mulheres de cabeça coberta simpáticas e sorridentes e que me observam curiosas e franceses e francesas que têm a República como orgulho e como símbolo a bela Mariane, mostrando as tetas, e a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade como princípios máximos e absolutos (só que não e vamos descobrir, juntos, até que ponto),
Ontem saímos de nossa periferia árabe e pós moderna e fomos dar um rolê pelo lado antigo e medieval da cidade. São duas dimensões completamente diferentes. Aqui são os predinhos dos anos 70 e 80, baixos, de um, dois, no máximo três andares (acho que devido àquele papo do Luis XIV que fez uma lei que não poderiam ser construídos edifícios mais altos que a Promenade de Peyrou etc e tal ou se simplesmente é uma lei urbana aqui (e na França em geral) mas o que conta é que os prédios são baixos, feito Praia Grande de Ubatuba, ou Tenório ou Itaguá.
Apesar do sol, do céu azul, dos pinheiros e dos pássaros à prova de frio. Faz frio, muito frio pra nossa pele de brasil. Cinco graus. No sol.
As aves que aqui gorjeiam, definitivamente, não gorjeiam como no Brasil. Mas é um som legal. Um gorgeio bom. Será que gorgeio vem de gorge que quer dizer garganta em français? Surement. Com certeza e com cerveja.
Só sei que tô bem.
É bom estar aqui, longe de tudo e de todos. Blancheur. S’éffacer du monde.
David le Breton, no livro “DisparaÎtre de soi” analisa isso. Me analisa. Querer sumir sem morrer. Simplesmente se dar o direito de recomeçar. Se reinventar.
E o vento ventando “e o nó na madeira, festa da cumeeira”. Como a festa no telhado da casa do Plá. “Pedra de atiradeira.”
E a vida tá boa aqui. Simples e boa. De cozinhar e lavar roupas e estender e dobrar e comprar coisas pra cozinhar e esperar o filho e escrever e socializar com a vizinhança do prédio aqui. Super gente boa. Nem frios. Nem entrões. 
Aleluia, hosana nas alturas. Êpa hey meu pai!

Tudo sob controle
E tem eu
E a casa
E as coisas
E esse note
Onde I note
E anoto
As palavras que dizem de mim
De minha vida de agora
O note
Anote ando
A note ado
De noite e de dia
Sempre
Sem sábados
Sem obrigações
Só sendo
E sendo só.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Corconne

Corconne, uma cidadezinha a 38 km ao norte de Montpellier com montanhas, pedras e uma vegetação tipo cerrado que lembra muito São Thomé...
hajam letras pra descrever a sensação de inteireza e tranquilidade ao me dar conta de que o planeta inteiro é um só canteiro de flores e, como diz Zé Geraldo: "uma parte do mundo é nossa morada e a outra parte é nosso quintal"!



E como dizia Tom Jobim...



Um ano após o atentado na redação do jornal "Charlie Hebdo", a tv e os jornais, só falam nisso. Tipo Globo, SBT, Record, sensacionalisando e meio que apavorando a gente.
Comprei o jornal de ontem (imagem da capa anexada abaixo) e já li quase inteiro. Dessa vez eles provocam os católicos...
Eles continuaram a publicar e dos 10 mil assinantes que tinham no começo de janeiro de 2015, passaram a ter 220 mil após os atentados. Essa edição de um ano do que eles chamam de "carnificina" traz depoimentos dos sobreviventes e poemas de pessoas famosas como Isabelle Adjani, Charlotte Gainsbourg e Juliette Binoche, entre outros. Todos defendendo o direito da liberdade de expressão e do Estado Laico.
Não sei o que pensar. Ano passado, quando aconteceu, eu estava no Brasil e pensei que não era nada legal ficar zombando da religião alheia, mas também que nada, nunca nesse mundo justificaria a atitude dos irmãos Kouachi, disparando cerca de sessenta tiros numa sala de 20 mts² para defender a honra de Alá.
Hoje, aqui, penso que, realmente, essa liberdade de expressão conquistada e mantida pela França até os dias de hoje é uma preciosidade e se curvar a bárbaries como essa seria, mudando o comportamento, de certa forma, abrir mão desses direitos.
Como estrangeiros brasileiros, contamos com um acolhimento e uma simpatia inesperados por mim, que tinha vivido ilegalmente na Paris dos anos 90 e tinha sentido na pele o que é ser um imigrante. As pessoas dos serviços públicos, das escolas, enfim, as pessoas em geral são muito carinhosas e simpáticas com a gente aqui, gostam do nosso sotaque, suspiram nostálgicos quando explicamos que somos do Brasil.
Mas basta uma pequena situação, como ver o filho indo pra escola sem conhecer ninguém, ou ter que comprar um bilhete de tram e não ter moedas certas pq a máquina não dá troco ou tirar uma foto 3 X 4 numa máquina automática e não conseguir fazer com que funcione, que já nos sentimos menos empodeirados, meio que desamparados...
Mas, e os demais imigrantes? como são acolhidos? como são tratados? Como lidam com a tecnologia onde as pessoas foram substituídas por máquinas?
Todos os terroristas, até hoje, eram pessoas que nasceram na frança, filhos de pais árabes... de certa forma, são como aqueles adolescentes norte-americanos que atiram nos colegas de escola que fizeram bullying com eles. Talvez aqui seja como se todo o país fizesse uma espécie de bullying com os estrangeiros, apesar de acolhê-los oficialmente.
Bom, enfim. Terror à parte, as pessoas estão por aqui, pelas ruas, indo e vindo, continuando suas vidas, ... e nós também!
Seja sob o manto de Nossa Senhora Aparecida, sob os olhos de Alá ou sob a lógica positiva do ateísmo.
No fundo, é como dizia Tom Jobim:
"Viver no exterior é bom, mas é uma merda.
Viver no Brasil é uma merda, mas é bom".
(Antonio Carlos Jobim)