terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Personagem n° 2 Amar







Não. Não é o verbo Amar.
É o Sr. Amar. Um árabe que pode ter entre 40, 50 ou 60  e poucos anos, idade indeterminada.
Nascido na Argélia, mudou-se pra Montpellier há alguns tantos anos onde vive até hoje com a mulher e os filhos.
Homem "Bom-bril" é o  "faz tudo" a serviço dos proprietários do predinho onde vivemos.
Ajudou a construir o prédio, pedreiro, encanador, eletricista, marceneiro, carpinteiro, tapeceiro, jardineiro e, na horas vagas, D.J.!
Sim, exatamente.
Conhecemos o Amar no apartamento do proprietário quando viemos pela primeira vez ver o imóvel que tínhamos acessado no site "de particulier a particulier location appartement", indicado pela moça, a princípio chata e fresca de uma imobiliária que nos assegurou que ninguém, a não ser as pessoas desse site, que são os próprios proprietários de imóveis, nos alugaria um imóvel sem termos, fiador, emprego fixo , enfim.
Fumando um cigarro atrás do outro, dentro do apartamento do proprietário, (que também fumava muito, como muita gente aqui), Amar sempre contribuía com uma informação ou um comentário em todos os assuntos. Seja a respeito dos campinhos de futebol do bairro, das escolas públicas, etc e tal, inventando o que não tinha certeza.
Já me simpatizei desde o primeiro momento, com esse árabe de sorriso maroto e olhar perspicaz de menino que teve direito e usufruiu de uma infância de moleque atentado.
Este apartamento, foi o primeiro e único que visitamos.
A prontidão em ajudar do proprietário (que é outro personagem), a presença engraçada de Amar, as visitas breves Mme Jeannine, vizinha do proprietário  e da Ângela,  a anja-espanhola que faz a faxina e mora também no prédio, enfim, todo esse ambiente familiar e acolhedor, fizeram com que eu decidisse por esse apartamento logo de cara e cancelasse todas as outras visitas agendadas com os demais agentes imobiliários que tínhamos contactado.
Mas voltemos ao Amar.
Na segunda semana nossa aqui no encantado imóvel, já fomos avisados que haveria uma Festa de Reis no salão de festas do prédio e que Ângela prepararia uma autêntica paella para deleite de todos!
No dia da festa, atraída pela música, dei uma passada no salão no período da tarde para sapear dar uma "força" pra galera nas arrumações.
Lá estava Amar, entre fios e botões, instalando caixas de som que não desapontariam o Beto Guedes na BoAAAte por ocasião de sua passagem/show em terras ararunas e pucarenas.
Super potente o equipamento.
E Amar, como bom menino "Gabriel Pavo Pavan" crescido que era, testava o som a fundo, no último dos decibéis possíveis, fazendo tremer as estruturas do prédio comprido de um só andar.
"Buena Vista Social Club" era a trilha sonora e aí eu já pude comprovar, mais uma vez, como tinha escolhido bem o local pra fazer nossa vida aqui.
À noite, voltei para o salão, já paramentada com meu vestido herdado da querida e saudosa Marcela Finardi en nosso bazar de trocas e reformado por mim, em minhas divagações artesanais sobre o tema da "selfie costura". Lá chegando me deparei com os demais habitantes do prédio, uma galera pra lá de interessante numa miscelânea de idade, raças, nacionalidades, credos e cores.
Muito legal mesmo. Minha cara, mais uma vez.
Mas voltemos ao Amar. Não o verbo. O super-árabe.
Orgulhosíssimo, atrás de sua mesa de som, manejava os botões de tal forma que era impossível conversar. Potência total! E Amar sorrindo largo, em êxtase!
Aí, a mocinha cigana com seu namorado gordinho sugeriu Gipsy Kings e fomos inundados por uma avalanche de "Jobi-jobá, cada dia que te quiero más!" e todo mundo levantou de seu lugar, deixando a Paella, o vinho, a salada de lado e hop! pro salão dançar!
E nem neste momento, o poder e a supremacia de Deus-Amar deixaram de se fazer notar, pois cada vez que a galera na "pista" se soltava dançando e entrando em delírio, Amar cortava o som, no meio da música mesmo.
Todo mundo olhava pra ele. E ele lá. Com seu sorriso matreiro, mexendo nos botões e mandando outra música, nada a ver com a anterior. Disco anos 80. Músicas árabes. Músicas espanholas. Rap francês. Se a galera começasse a dançar e a se animar..hop! de novo: Amar cortava a música e ria, ria solto. E a gente ria também.
Por falar nisso, faz tempo que ele não aparece por aqui. Estamos esperando. Pra consertar umas coisinhas que estão quebradas desde que entramos no apartamento.
Mas Amar é assim. E aí se faz necessário lembrar da canção de Renato Russo:

" É preciso Amar (e esperar) como se não houvesse amanhã!"

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