tão de repente que nem sente, saudade do que já passou"
(De repente, Califórnia - Nelson Motta)

E de repente me vejo aqui, vivendo uma vida na França, com pessoas vivendo em torno,
Uma vez por semana jogo baralho e tomo chá (não necessariamente na mesma ordem) com a Madame Jeannine, uma senhora de 86 anos que mora num apê no térreo daqui do predinho onde moramos.
Madamme Jeannine é nascida em Montpellier, sobreviveu à Segunda Guerra e tem muitas, muitas histórias pra contar. É poetisa, foi casada três vezes e trabalhou até se aposentar como enfermeira em hospitais e tem três filhos e alguns netos.
Somos amigas. Jogamos baralho, ela conta sua vida, me ensina as gírias, expressões engraçadas e palavrões do sul da França.
E eu vou aprendendo...
Madame Jeannine gosta de falar.
Eu ouço.
Madame Jeannine prefere falar do que ouvir e eu gosto de ouvir as histórias.
Mas às vezes ela fica curiosa e me pergunta sobre minha vida também. Breves momentos.
Além das aventuras de amores e de guerras, da vida de seus filhos, há também as histórias de suas múltiplas cirurgias, de suas dores matinais, de suas brigas com as faxineiras que a agência manda.
Madame Jeannine tem um gênio forte.
Bem forte.
Estou acostumada com gente assim, me lembra minha avó Santa.
Outro dia ela me pediu pra lhe mostrar a agência do Correio pois queria enviar umas cartas. Bom, passei na casa dela e ela já estava pronta, de óculos escuros Matrix, sentada na cadeira de rodas elétrica "power multi rangers plus" que ela usa pra sair pela rua, apesar de se movimentar relativamente bem sobre suas próprias pernas quando está em casa.
Depois de alguns minutos andando com ela pelas calçadas(a passos largos pra acompanhar o ritmo da cadeira voadora) pude constatar que Mme Jeannine e sua cadeira zumbi constituem um verdadeiro perigo para a humanidade!
Descobri que Deus, além de ser brasileiro, é francês também.
A cidade, este bairro e a França em geral é toda equipada para bicicletas, carrinhos de bebê e cadeiras de rodas, com rampas, ciclovias especiais, etc e tal.
Mas mesmo assim, em alguns momentos, ela decide que a rampinha de acesso da rua pra calçada não está a contento e que a alturinha de desnível entre a rua e a ciclovia poderia prejudicar as engrenagens, ou mesmo suspensões de sua super hiper cadeira turbinada.
E então o caos se faz. Ela maneja a espécie de controle de videogame que tem no braço da cadeira, aperta uns tantos botões de ré e frente e etc e tal, e... tcham e vrummm
E lá vai Mme. Jeannine pelo meio da rua!
Sim, pelo meio da rua mesmo, como se fosse um carro.
Enquanto isso, orgulhosa, ela acelera e me conta que fez uma espécie de auto-escola pra dirigir a tal cadeira e eu, correndo pela calçada ao lado, esbaforida, num silêncio tenso de preocupação e desespero, questiono a eficiência de tal instrutor.
E aí percebo, aliviada e divertida que tudo se arranja com umas freadas aqui, umas buzinadas ali, e a paciência de outros tantos motoristas abençoados pelo "Deus brasileiro exilado na França" ou talvez por Alá que, pelo que já deu pra perceber, vagueia também por essas terras entre tapetes de orações, bombas e olhares maliciosos no tram.
É bom ter Mme Jeannine por perto.
Se demoro uns dias sem ligar ou aparecer, ela liga:
"Tá viva? Pensei que tivesse morrido em algum canto!".
Eu rio. É bom.
Pensei até em fazer um trabalho voluntário num asilo que vi aqui por perto. A "Casa de Repouso" se chama "Les violettes" (As violetas, nome bem sugestivo pra nós, da Família Fernandes) mas pensei bem e achei melhor não.
Já tenho a Mme Jeannine.
Já tá de bom tamanho.
Vida longa à Mme Jeannine!
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