segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Bélgica


A Bélgica. Um requinte e uma sofisticação que deixou a França pra trás. A França com seu orgulho exagerado, com sua auto-confiança cultural e territorial. E a Bélgica lá. Com suas cortinas bordadas, suas janelas, sua arquitetura à “prova de neve”. Seus chocolates, sua cerveja, as batatas fritas, a música de Jacques Brel, o idioma francês, o flamengo (que é como um dialeto do holandês) e,  para um número bem menor de habitantes,  o alemão. A Bélgica que atravessamos em duas horas de estrada. Seja em qualquer direção, em qualquer lado. Das montanhas “les ardennes” , do litoral na Flandre, à fronteira com a Holanda,  ao Luxemburgo, à Alemanha ou ao norte da França. Duas horas de carro pra qualquer direção e lá estaremos. As estradas todas iluminadas. Na primavera, coelhos no acostamento, os pinheiros, no inverno, as árvores sem folhas , meigas margaridinhas nos gramados.  A simpatia de seu povo, a humildade de se saber culto sem precisar provar isso com nariz empinado e sotaque afetado
Namur, as casas de tijolinhos marrom escuro, as calçadas quase no nível da rua, o rio “la Meuse” que atravessa Namur, as montanhas arborizadas, as muralhas de “la Citadelle”,  o lado medieval da cidade e a família belga, acolhedora, sorridente, festejando nossa chegada.





Muitas construções novas e modernas, prédios de escritórios e apartamentos, seguindo o mesmo estilo de cores das construções antigas, numa arquitetura que consegue, ao mesmo tempo ser sóbria e inovadora. A França não consegue essa proeza. Quer inovar e as novas construções francesas, a meu ver, beiram o “kirsh”, espelhos demais, azulejos demais, como um grande camarim ou uma enorme sala de banhos. Apesar de ser vítima de zombarias e chacotas por parte dos franceses, a Bélgica continua sendo mais chique e mais sofisticada que a França de hoje (a meus olhos, obviamente).
Os Belgas estão decepcionados com seu rei. No auge da apreensão e do medo, na época do pós atentado de novembro, sabendo que os terroristas tinham partido de Bruxelas para explodir a França e que pra lá tinham voltado, o país em estado de alerta, em grau 4, o máximo de perigo, lá se vai o rei  passar uns dias de férias na Bretanha, tipo “foda-se”, tipo “vamos livrar o nosso”.
Algum paparazzi eficiente, clicou a família real em roupão de banho, tomando um drinque no aconchego de um spa à beira mar, no noroeste francês. O povo ficou “puto”. Depois disso, não contente, o rei aparece na tv para se explicar, gaguejando, dizendo desculpas sem se desculpar realmente e afunda ainda mais no mangue de descrédito que tinha começado a criar em torno de sua imagem real.
De resto, tudo continua como se nada tivesse acontecido. As pessoas vivem normalmente, fazem suas compras, tomando seus aperitivos nos cafés, comendo nos restaurantes e “brasseries”.

Os aeroportos aumentaram o controle (a companhia irlandesa Ryan Air, entre outras, oferece preços maravilhosos fazendo com que ir de avião fique mais barato que ir de trem hoje em dia). Ao passar pelo controle de passaportes, ainda no aeroporto de Montpellier, recebo um olhar desconfiado da agente da polícia federal ao apresentar minha carta de identidade francesa. Nos dias de hoje, não basta ter documentos e provar a nacionalidade europeia, os terroristas eram franceses e tinham todos os papéis em dia. Não. Hoje é preciso talvez ter a pele bem branca, rosada, olhos claros mesmo (ou talvez um crucifixo no pescoço) pra não levantar qualquer suspeita. Não sei. Mas vou passando e vou entrando, assim como a música de Caetano “Minha mãe, meu pai, meu povo” que ensina “a sentença de sempre pedir licença mas nunca deixar de entrar”.  

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