A Bélgica. Um requinte e uma sofisticação que deixou a
França pra trás. A França com seu orgulho exagerado, com sua auto-confiança
cultural e territorial. E a Bélgica lá. Com suas cortinas bordadas, suas
janelas, sua arquitetura à “prova de neve”. Seus chocolates, sua cerveja, as
batatas fritas, a música de Jacques Brel, o idioma francês, o flamengo (que é
como um dialeto do holandês) e, para um
número bem menor de habitantes, o
alemão. A Bélgica que atravessamos em duas horas de estrada. Seja em qualquer
direção, em qualquer lado. Das montanhas “les ardennes” , do litoral na
Flandre, à fronteira com a Holanda, ao
Luxemburgo, à Alemanha ou ao norte da França. Duas horas de carro pra qualquer
direção e lá estaremos. As estradas todas iluminadas. Na primavera, coelhos no
acostamento, os pinheiros, no inverno, as árvores sem folhas , meigas
margaridinhas nos gramados. A simpatia
de seu povo, a humildade de se saber culto sem precisar provar isso com nariz
empinado e sotaque afetado
Namur, as casas de tijolinhos marrom escuro, as calçadas
quase no nível da rua, o rio “la Meuse” que atravessa Namur, as montanhas
arborizadas, as muralhas de “la Citadelle”,
o lado medieval da cidade e a família belga, acolhedora, sorridente,
festejando nossa chegada.
Muitas construções novas e modernas, prédios de escritórios
e apartamentos, seguindo o mesmo estilo de cores das construções antigas, numa
arquitetura que consegue, ao mesmo tempo ser sóbria e inovadora. A França não
consegue essa proeza. Quer inovar e as novas construções francesas, a meu ver,
beiram o “kirsh”, espelhos demais, azulejos demais, como um grande camarim ou
uma enorme sala de banhos. Apesar de ser vítima de zombarias e chacotas por
parte dos franceses, a Bélgica continua sendo mais chique e mais sofisticada
que a França de hoje (a meus olhos, obviamente).
Os Belgas estão decepcionados com seu rei. No auge da
apreensão e do medo, na época do pós atentado de novembro, sabendo que os
terroristas tinham partido de Bruxelas para explodir a França e que pra lá
tinham voltado, o país em estado de alerta, em grau 4, o máximo de perigo, lá
se vai o rei passar uns dias de férias
na Bretanha, tipo “foda-se”, tipo “vamos livrar o nosso”.
Algum paparazzi eficiente, clicou a família real em roupão
de banho, tomando um drinque no aconchego de um spa à beira mar, no noroeste
francês. O povo ficou “puto”. Depois disso, não contente, o rei aparece na tv
para se explicar, gaguejando, dizendo desculpas sem se desculpar realmente e
afunda ainda mais no mangue de descrédito que tinha começado a criar em torno
de sua imagem real.
De resto, tudo continua como se nada tivesse acontecido. As
pessoas vivem normalmente, fazem suas compras, tomando seus aperitivos nos
cafés, comendo nos restaurantes e “brasseries”.
Os aeroportos aumentaram o controle (a companhia irlandesa
Ryan Air, entre outras, oferece preços maravilhosos fazendo com que ir de avião
fique mais barato que ir de trem hoje em dia). Ao passar pelo controle de
passaportes, ainda no aeroporto de Montpellier, recebo um olhar desconfiado da
agente da polícia federal ao apresentar minha carta de identidade francesa. Nos
dias de hoje, não basta ter documentos e provar a nacionalidade europeia, os
terroristas eram franceses e tinham todos os papéis em dia. Não. Hoje é preciso
talvez ter a pele bem branca, rosada, olhos claros mesmo (ou talvez um
crucifixo no pescoço) pra não levantar qualquer suspeita. Não sei. Mas vou
passando e vou entrando, assim como a música de Caetano “Minha mãe, meu pai,
meu povo” que ensina “a sentença de sempre pedir licença mas nunca deixar de
entrar”.


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