segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O não-lembrar

Aquilo não era vida. Aquilo era apenas uma existência doída e doida, sentida e sem sentido mantida em funcionamento por alguma força que emanava de algum ponto do universo. Algo que pulsava muito além de sua vontade e a mantinha assim, fazedeira, cozinheira, passadeira, lavadeira, até quando o sistema parasse, até quando o universo se cansasse. Era uma saudade em forma de esquecimento. Em forma de servidão e atividades múltiplas. Um não lembrar feito lavagem cerebral, um eletrochoque de adrenalinas e falsas paixões, viagens, prêmios e abraços que a apertavam até quase sufocar. Só porque estava viva, só porque nem mesmo assim, iria se lembrar. Para que se lembrasse, era preciso que primeiro armasse toda a estrutura. Uma estrutura sólida, composta de paredes, lençóis brancos, toalhas coloridas cheirando à arlecrim. (Drizotti na edícula, junho de 2014)

A poesia me invade...

“A poesia me invade. Não em ondas doces, mas feito água represada, inundando os campos geométricos onde eu havia, minuciosamente semeado fileiras de margaridas amarelas. A poesia me arrebata e me invade feito mata atlântica, feito sol de primavera em meu peito de mulher quase velha”. (Drizotti na Edícula, setembro de 2013)

Vácuo deserto

“E deixava-se estar naquele tempo/espaço tênue, entre a realidade da vida e o vácuo deserto de seu não-pensar, suspensa num tubo, buraco de minhoca cósmico onde, não sendo nada além de um ser não-pensante, descansava da intensidade do cotidiano que lhe roubava as forças entre esperas na esquina e sorrisos falsos de falsas amigas. A dor do mundo corroia-lhe as entranhas, convertendo-se em suspiros longos como se todo o ar do quarto pudesse ser aspirado e coubesse em seu peito grande de tanto amor imaginado. Faltava-lhe mesmo era coragem para se olhar no espelho sem vaidades e descobrir, que, há muito, estivera morta por dentro, morta em esperança e sabedoria, faltava-lhe vida (e haveria vida após a morte?) mas como livrar-se dessa agonia escamoteada em risos e palhaçadas? Como livrar-se de tudo que tinha construído para si sem correr o risco de constatar que não era e nem nunca tinha sido nada? Feito ameba, planta ou pedra, ou menos? Feito idéia não realizada de um inventor maluco mestre do universo, cínico construtor de pontes que vão do nada a lugar nenhum? Palhaço sem graça assoprando bolhas de sabão ao vento? Como suportar tamanha i-realidade?” (Drizotti no auge da depressão. Edícula, março de 2013)

Regenerar Re-gerar Gerar Refazer Genes

Não fosse pelo tamanho das árvores, jamais saberia medir o tempo, contar em anos de meses desde o dia em que seus pés tinham pisado pela primeira vez naquele chão de pedras e musgos, naquele cerrado de cheiros, espinheiros e folhas sedosas das quaresmeiras que desabrochavam sua vida fúxia nas secas temporadas de julho. Não fosse pelas rugas em torno de seus olhos cansados, pelo seu ventre entumecido pelos açúcares e carboidratos da ansiedade e da angústia, formando dobras feito marolas largas em alto mar, jamais poderia ter calculado os mililitros de metros cúbicos das muitas gotas de lágrimas derramadas graças a uma mania insistente de amar e de se dar e de cuidar e de esperar e de des-esperar e se conter e quase explodir e aguentar. Não fosse pelos fios de cabelos brancos, ocultos pela henna indiana, astutos e velozes no ato de se revelar pelas raízes da fronte e das têmporas, tampouco teria sabido medir a extensão em kilômetros de todos os pensamentos já passados pela sua cabeça, se assim possível fosse, alinhá-los, feito vagões de trem rumo ao horizonte infinito. Mas hoje não. Hoje serenara o peito, aquietara a mente e seu ventre se aquecia com uma chama leve e quente que conseguia substituir, magistralmente, o antigo e devastador fogo das paixões. Era como se, finalmente, aos cinquenta anos de vida, começasse a gestar a si mesma. Era como se estivesse se preparando para parir-se, para recriar-se, re-educar-se e assistir-se no sentido mais amplo desta palavra que engloba assistência cuidadora e maravilhamento de expectador. Assistia esse refazer-se, assim como tinha assistido àquela terra se regenerar após sucessivos incêndios e profanações de golpes de machado e motosserras. (Sítio Cavalinho Pucareno, São Thomé das Letras, 2013)

domingo, 25 de janeiro de 2015

Serenidade

"Aprendera a placidez dos animais, o dormência vigilante de deixar-se arrastar pelas águas do rio das horas. Não precisava mais correr, não precisava mais pensar, planejar, estruturar, concatenar; as coisas simplesmente aconteciam, feito brisa, feito chuva, feito som de cigarras no cair da tarde" (Trecho de um novo romance - Drizotti)

Clarices Lispector - Só

Ando de um lado para outro, dentro de mim. Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros.

O Tempo (Carlos Drummond de Andrade)

"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante tudo vai ser diferente. Para você, desejo o sonho realizado, o amor esperado, a esperança renovada. Para você, desejo todas as cores desta vida, todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar. Para você, neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família seja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida. Gostaria de lhe desejar tantas coisas... Mas nada seria suficiente... Então desejo apenas que você tenha muitos desejos, desejos grandes. E que eles possam mover você a cada minuto ao rumo da sua felicidade."