segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Regenerar Re-gerar Gerar Refazer Genes

Não fosse pelo tamanho das árvores, jamais saberia medir o tempo, contar em anos de meses desde o dia em que seus pés tinham pisado pela primeira vez naquele chão de pedras e musgos, naquele cerrado de cheiros, espinheiros e folhas sedosas das quaresmeiras que desabrochavam sua vida fúxia nas secas temporadas de julho. Não fosse pelas rugas em torno de seus olhos cansados, pelo seu ventre entumecido pelos açúcares e carboidratos da ansiedade e da angústia, formando dobras feito marolas largas em alto mar, jamais poderia ter calculado os mililitros de metros cúbicos das muitas gotas de lágrimas derramadas graças a uma mania insistente de amar e de se dar e de cuidar e de esperar e de des-esperar e se conter e quase explodir e aguentar. Não fosse pelos fios de cabelos brancos, ocultos pela henna indiana, astutos e velozes no ato de se revelar pelas raízes da fronte e das têmporas, tampouco teria sabido medir a extensão em kilômetros de todos os pensamentos já passados pela sua cabeça, se assim possível fosse, alinhá-los, feito vagões de trem rumo ao horizonte infinito. Mas hoje não. Hoje serenara o peito, aquietara a mente e seu ventre se aquecia com uma chama leve e quente que conseguia substituir, magistralmente, o antigo e devastador fogo das paixões. Era como se, finalmente, aos cinquenta anos de vida, começasse a gestar a si mesma. Era como se estivesse se preparando para parir-se, para recriar-se, re-educar-se e assistir-se no sentido mais amplo desta palavra que engloba assistência cuidadora e maravilhamento de expectador. Assistia esse refazer-se, assim como tinha assistido àquela terra se regenerar após sucessivos incêndios e profanações de golpes de machado e motosserras. (Sítio Cavalinho Pucareno, São Thomé das Letras, 2013)

Nenhum comentário:

Postar um comentário