segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O não-lembrar

Aquilo não era vida. Aquilo era apenas uma existência doída e doida, sentida e sem sentido mantida em funcionamento por alguma força que emanava de algum ponto do universo. Algo que pulsava muito além de sua vontade e a mantinha assim, fazedeira, cozinheira, passadeira, lavadeira, até quando o sistema parasse, até quando o universo se cansasse. Era uma saudade em forma de esquecimento. Em forma de servidão e atividades múltiplas. Um não lembrar feito lavagem cerebral, um eletrochoque de adrenalinas e falsas paixões, viagens, prêmios e abraços que a apertavam até quase sufocar. Só porque estava viva, só porque nem mesmo assim, iria se lembrar. Para que se lembrasse, era preciso que primeiro armasse toda a estrutura. Uma estrutura sólida, composta de paredes, lençóis brancos, toalhas coloridas cheirando à arlecrim. (Drizotti na edícula, junho de 2014)

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