domingo, 17 de janeiro de 2016

UM SÁBADO À TARDE SOBRE A TERRA...

Lá fora, três espécies de pinheiros, árvores que perderam suas folhas nos invernos, imensas gralhas brancas e negras no gramado da grande casa de pedra do vizinho.
E tem o vento. E o sol.
Sempre o sol nesse sul da França abençoado.
E o filho fazendo trabalho de espanhol na médiatheque de Mosson com os amigos de escola.
Ele já tem dois amigos franceses, um amigo negão que passou a vida na China e o árabe pequenino, todo confiante.
E cá estamos nós. No meio desse “rédemunho”: entre negões cidadões do mundo, árabes machistas que “se acham”, mulheres de cabeça coberta simpáticas e sorridentes e que me observam curiosas e franceses e francesas que têm a República como orgulho e como símbolo a bela Mariane, mostrando as tetas, e a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade como princípios máximos e absolutos (só que não e vamos descobrir, juntos, até que ponto),
Ontem saímos de nossa periferia árabe e pós moderna e fomos dar um rolê pelo lado antigo e medieval da cidade. São duas dimensões completamente diferentes. Aqui são os predinhos dos anos 70 e 80, baixos, de um, dois, no máximo três andares (acho que devido àquele papo do Luis XIV que fez uma lei que não poderiam ser construídos edifícios mais altos que a Promenade de Peyrou etc e tal ou se simplesmente é uma lei urbana aqui (e na França em geral) mas o que conta é que os prédios são baixos, feito Praia Grande de Ubatuba, ou Tenório ou Itaguá.
Apesar do sol, do céu azul, dos pinheiros e dos pássaros à prova de frio. Faz frio, muito frio pra nossa pele de brasil. Cinco graus. No sol.
As aves que aqui gorjeiam, definitivamente, não gorjeiam como no Brasil. Mas é um som legal. Um gorgeio bom. Será que gorgeio vem de gorge que quer dizer garganta em français? Surement. Com certeza e com cerveja.
Só sei que tô bem.
É bom estar aqui, longe de tudo e de todos. Blancheur. S’éffacer du monde.
David le Breton, no livro “DisparaÎtre de soi” analisa isso. Me analisa. Querer sumir sem morrer. Simplesmente se dar o direito de recomeçar. Se reinventar.
E o vento ventando “e o nó na madeira, festa da cumeeira”. Como a festa no telhado da casa do Plá. “Pedra de atiradeira.”
E a vida tá boa aqui. Simples e boa. De cozinhar e lavar roupas e estender e dobrar e comprar coisas pra cozinhar e esperar o filho e escrever e socializar com a vizinhança do prédio aqui. Super gente boa. Nem frios. Nem entrões. 
Aleluia, hosana nas alturas. Êpa hey meu pai!

Tudo sob controle
E tem eu
E a casa
E as coisas
E esse note
Onde I note
E anoto
As palavras que dizem de mim
De minha vida de agora
O note
Anote ando
A note ado
De noite e de dia
Sempre
Sem sábados
Sem obrigações
Só sendo
E sendo só.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Corconne

Corconne, uma cidadezinha a 38 km ao norte de Montpellier com montanhas, pedras e uma vegetação tipo cerrado que lembra muito São Thomé...
hajam letras pra descrever a sensação de inteireza e tranquilidade ao me dar conta de que o planeta inteiro é um só canteiro de flores e, como diz Zé Geraldo: "uma parte do mundo é nossa morada e a outra parte é nosso quintal"!



E como dizia Tom Jobim...



Um ano após o atentado na redação do jornal "Charlie Hebdo", a tv e os jornais, só falam nisso. Tipo Globo, SBT, Record, sensacionalisando e meio que apavorando a gente.
Comprei o jornal de ontem (imagem da capa anexada abaixo) e já li quase inteiro. Dessa vez eles provocam os católicos...
Eles continuaram a publicar e dos 10 mil assinantes que tinham no começo de janeiro de 2015, passaram a ter 220 mil após os atentados. Essa edição de um ano do que eles chamam de "carnificina" traz depoimentos dos sobreviventes e poemas de pessoas famosas como Isabelle Adjani, Charlotte Gainsbourg e Juliette Binoche, entre outros. Todos defendendo o direito da liberdade de expressão e do Estado Laico.
Não sei o que pensar. Ano passado, quando aconteceu, eu estava no Brasil e pensei que não era nada legal ficar zombando da religião alheia, mas também que nada, nunca nesse mundo justificaria a atitude dos irmãos Kouachi, disparando cerca de sessenta tiros numa sala de 20 mts² para defender a honra de Alá.
Hoje, aqui, penso que, realmente, essa liberdade de expressão conquistada e mantida pela França até os dias de hoje é uma preciosidade e se curvar a bárbaries como essa seria, mudando o comportamento, de certa forma, abrir mão desses direitos.
Como estrangeiros brasileiros, contamos com um acolhimento e uma simpatia inesperados por mim, que tinha vivido ilegalmente na Paris dos anos 90 e tinha sentido na pele o que é ser um imigrante. As pessoas dos serviços públicos, das escolas, enfim, as pessoas em geral são muito carinhosas e simpáticas com a gente aqui, gostam do nosso sotaque, suspiram nostálgicos quando explicamos que somos do Brasil.
Mas basta uma pequena situação, como ver o filho indo pra escola sem conhecer ninguém, ou ter que comprar um bilhete de tram e não ter moedas certas pq a máquina não dá troco ou tirar uma foto 3 X 4 numa máquina automática e não conseguir fazer com que funcione, que já nos sentimos menos empodeirados, meio que desamparados...
Mas, e os demais imigrantes? como são acolhidos? como são tratados? Como lidam com a tecnologia onde as pessoas foram substituídas por máquinas?
Todos os terroristas, até hoje, eram pessoas que nasceram na frança, filhos de pais árabes... de certa forma, são como aqueles adolescentes norte-americanos que atiram nos colegas de escola que fizeram bullying com eles. Talvez aqui seja como se todo o país fizesse uma espécie de bullying com os estrangeiros, apesar de acolhê-los oficialmente.
Bom, enfim. Terror à parte, as pessoas estão por aqui, pelas ruas, indo e vindo, continuando suas vidas, ... e nós também!
Seja sob o manto de Nossa Senhora Aparecida, sob os olhos de Alá ou sob a lógica positiva do ateísmo.
No fundo, é como dizia Tom Jobim:
"Viver no exterior é bom, mas é uma merda.
Viver no Brasil é uma merda, mas é bom".
(Antonio Carlos Jobim)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz ano novo

RECEITA DE ANO NOVO
(Carlos Drummond de Andrade , "Receita de Ano Novo". Editora Record. 2008.)
"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A alemanha - Colônia


Desde o advento da unificação europeia  e do euro, a europa não tem mais fronteiras. Quando eu vivi pelas bandas de cá de 1991 a 1995, ainda tinha.
Então tudo é muito novo pra mim.
No último domingo, saímos de carro de Namur, na Bélgica, rumo à Alemanha.
Depois de uma hora e meia, uma pequena placa, ou mesmo nem isso, sei lá e tudo muda: o idioma nas placas, o estilo da arquitetura, as fábricas enormes e antigas, e voilá! Estamos na Alemanha! Atravessamos uma ponte sobre o Rio Reno e chegamos em Colônia.
Como não havia vagas, vamos na direção de um estacionamento, daqueles tipo prédio de estacionamento no centro da cidade e lá vem a primeira surpresa: letras em verde, palavras em alemão, o símbolo do feminismo precedendo a frase e nos damos conta que todas as vagas do primeiro andar do estacionamento são reservadas às mulheres!
Pelas ruas, bares e restaurantes, homens levando os bebês em slings e porta-bebês, empurrando os carrinhos, ou sozinhos, ou acompanhados pela mulher que leva a bolsa.
Graças à luta das mulheres  desde os anos 50 e 60, que a mentalidade do mundo machista tá se extinguindo e é por aqui que sentimos os primeiros e bem aventurados ventos...
Seguimos por ruas estreitas em busca da famosa catedral de Colônia que resistiu aos bombardeios da Segunda Guerra mundial. Seguimos um som e eis que numa esquina nos deparamos com uma dupla de curdos ou turcos de uns sessenta anos, tocando uma espécie de flauta e outro uma percussão típica. Mais adiante, um outro som invade nossos ouvidos, passamos diante de lojas de  souvenir, sorveterias e cafés e eis que diante de nós surge a praça e a tão procurada Catedral de Colônia! Aos pés da catedral, no meio da praça, um piano de cauda negro colocado sobre uma plataforma com rodas, nos esclarece sobre a origem da música maravilhosa que nos atraiu até lá. A catedral é simplesmente maravilhosa! Muito mais linda que a Notre Damme de Paris por fora (se bem que por dentro, nada se compare à grande mandala de vitral colorido da catedral francesa).
É simplesmente milagroso o fato dessa catedral ter se mantido em pé enquanto toda a cidade ruía e se transformava em escombros. Dentro da catedral, era como se eu sentisse a presença de todos aqueles que devem ter se abrigado lá, enquanto suas casa queimavam sob as chamas da ignorância, da ganância e da ânsia de poder infinitamente idiota dos homens de ontem (e, infelizmente de hoje ainda...)
Saindo da catedral, passamos ao lado de um portal romano, do ano 50 depois de Cristo e depois  nos sentamos em bancos, de frente pra praça, ouvindo ainda o som melodioso do piano de cauda e o agrupamento multirracial, multicultural e cosmopolita de pessoas que transitavam por ali.  Um tanto de gente do mundo todo, de todas as idades, de todas as cores, desfilando sob meus olhos que não se cansam de se extasiar e se deliciar com esse banho de história e de novidades, com esse tufão de energia e de persistência do povo alemão que tudo perdeu e tudo refez em tão pouco tempo...








A Bélgica


A Bélgica. Um requinte e uma sofisticação que deixou a França pra trás. A França com seu orgulho exagerado, com sua auto-confiança cultural e territorial. E a Bélgica lá. Com suas cortinas bordadas, suas janelas, sua arquitetura à “prova de neve”. Seus chocolates, sua cerveja, as batatas fritas, a música de Jacques Brel, o idioma francês, o flamengo (que é como um dialeto do holandês) e,  para um número bem menor de habitantes,  o alemão. A Bélgica que atravessamos em duas horas de estrada. Seja em qualquer direção, em qualquer lado. Das montanhas “les ardennes” , do litoral na Flandre, à fronteira com a Holanda,  ao Luxemburgo, à Alemanha ou ao norte da França. Duas horas de carro pra qualquer direção e lá estaremos. As estradas todas iluminadas. Na primavera, coelhos no acostamento, os pinheiros, no inverno, as árvores sem folhas , meigas margaridinhas nos gramados.  A simpatia de seu povo, a humildade de se saber culto sem precisar provar isso com nariz empinado e sotaque afetado
Namur, as casas de tijolinhos marrom escuro, as calçadas quase no nível da rua, o rio “la Meuse” que atravessa Namur, as montanhas arborizadas, as muralhas de “la Citadelle”,  o lado medieval da cidade e a família belga, acolhedora, sorridente, festejando nossa chegada.





Muitas construções novas e modernas, prédios de escritórios e apartamentos, seguindo o mesmo estilo de cores das construções antigas, numa arquitetura que consegue, ao mesmo tempo ser sóbria e inovadora. A França não consegue essa proeza. Quer inovar e as novas construções francesas, a meu ver, beiram o “kirsh”, espelhos demais, azulejos demais, como um grande camarim ou uma enorme sala de banhos. Apesar de ser vítima de zombarias e chacotas por parte dos franceses, a Bélgica continua sendo mais chique e mais sofisticada que a França de hoje (a meus olhos, obviamente).
Os Belgas estão decepcionados com seu rei. No auge da apreensão e do medo, na época do pós atentado de novembro, sabendo que os terroristas tinham partido de Bruxelas para explodir a França e que pra lá tinham voltado, o país em estado de alerta, em grau 4, o máximo de perigo, lá se vai o rei  passar uns dias de férias na Bretanha, tipo “foda-se”, tipo “vamos livrar o nosso”.
Algum paparazzi eficiente, clicou a família real em roupão de banho, tomando um drinque no aconchego de um spa à beira mar, no noroeste francês. O povo ficou “puto”. Depois disso, não contente, o rei aparece na tv para se explicar, gaguejando, dizendo desculpas sem se desculpar realmente e afunda ainda mais no mangue de descrédito que tinha começado a criar em torno de sua imagem real.
De resto, tudo continua como se nada tivesse acontecido. As pessoas vivem normalmente, fazem suas compras, tomando seus aperitivos nos cafés, comendo nos restaurantes e “brasseries”.

Os aeroportos aumentaram o controle (a companhia irlandesa Ryan Air, entre outras, oferece preços maravilhosos fazendo com que ir de avião fique mais barato que ir de trem hoje em dia). Ao passar pelo controle de passaportes, ainda no aeroporto de Montpellier, recebo um olhar desconfiado da agente da polícia federal ao apresentar minha carta de identidade francesa. Nos dias de hoje, não basta ter documentos e provar a nacionalidade europeia, os terroristas eram franceses e tinham todos os papéis em dia. Não. Hoje é preciso talvez ter a pele bem branca, rosada, olhos claros mesmo (ou talvez um crucifixo no pescoço) pra não levantar qualquer suspeita. Não sei. Mas vou passando e vou entrando, assim como a música de Caetano “Minha mãe, meu pai, meu povo” que ensina “a sentença de sempre pedir licença mas nunca deixar de entrar”.  

domingo, 20 de dezembro de 2015

As imensidões urbanas de Montpellier

Promenada du Peyrou

Contrastando com as ruelas e cantinhos, as imensidões!!

La promenade du Peyrou, également appelée place royale du Peyrou, est une esplanade de trois hectares aménagée en1689.(fonte titia Wikipedia)
A promenada do Peyrou, igualmente chamada de Praça Real do Peyrou, é uma esplanada de três hectares terminada em 1689. (tradução tabajara Drizotti)

Eu li numa placa que foi Luis XIV quem concebeu a praça que ele institui uma lei que vigora até os nossos dias, que as construções da cidade não podem ser mais altas que o beiral das muretas da parte baixa do parque.

Esses, reis com suas megalomanias, de um lado, trouxeram algumas vantagens. O lugar é lindo!  Lógico que não se pode distrair e é preciso sempre ficar de olho nos cocôs de cachorro que pipocam no meio do caminho e das calçadas, mas à parte disso, esse espaço é realmente de tirar o fôlego.

No final da alameda principal, um monumento com um lago em torno e atrás dele, os aquadutos romanos

à esquerda e à direita, lances de esquda que conduzem a uma parte mais baixa do parque. Pessoas tocando violão, se equilibrando em slacklines, passeando com cachorros, namorando...
Pela grade que dá acesso às ruas, outras ruelas, numa das quais,a casa de Augusto Comte, fundador do positivismo.
É. A França é tudo isso, seus reis, seus filósofos, seu iluminismo, seus cantos escuros, e no meio disso tudo, nós, de bocas abertas, nos surpreendendo com tudo, ainda. E sempre.