quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz ano novo

RECEITA DE ANO NOVO
(Carlos Drummond de Andrade , "Receita de Ano Novo". Editora Record. 2008.)
"Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A alemanha - Colônia


Desde o advento da unificação europeia  e do euro, a europa não tem mais fronteiras. Quando eu vivi pelas bandas de cá de 1991 a 1995, ainda tinha.
Então tudo é muito novo pra mim.
No último domingo, saímos de carro de Namur, na Bélgica, rumo à Alemanha.
Depois de uma hora e meia, uma pequena placa, ou mesmo nem isso, sei lá e tudo muda: o idioma nas placas, o estilo da arquitetura, as fábricas enormes e antigas, e voilá! Estamos na Alemanha! Atravessamos uma ponte sobre o Rio Reno e chegamos em Colônia.
Como não havia vagas, vamos na direção de um estacionamento, daqueles tipo prédio de estacionamento no centro da cidade e lá vem a primeira surpresa: letras em verde, palavras em alemão, o símbolo do feminismo precedendo a frase e nos damos conta que todas as vagas do primeiro andar do estacionamento são reservadas às mulheres!
Pelas ruas, bares e restaurantes, homens levando os bebês em slings e porta-bebês, empurrando os carrinhos, ou sozinhos, ou acompanhados pela mulher que leva a bolsa.
Graças à luta das mulheres  desde os anos 50 e 60, que a mentalidade do mundo machista tá se extinguindo e é por aqui que sentimos os primeiros e bem aventurados ventos...
Seguimos por ruas estreitas em busca da famosa catedral de Colônia que resistiu aos bombardeios da Segunda Guerra mundial. Seguimos um som e eis que numa esquina nos deparamos com uma dupla de curdos ou turcos de uns sessenta anos, tocando uma espécie de flauta e outro uma percussão típica. Mais adiante, um outro som invade nossos ouvidos, passamos diante de lojas de  souvenir, sorveterias e cafés e eis que diante de nós surge a praça e a tão procurada Catedral de Colônia! Aos pés da catedral, no meio da praça, um piano de cauda negro colocado sobre uma plataforma com rodas, nos esclarece sobre a origem da música maravilhosa que nos atraiu até lá. A catedral é simplesmente maravilhosa! Muito mais linda que a Notre Damme de Paris por fora (se bem que por dentro, nada se compare à grande mandala de vitral colorido da catedral francesa).
É simplesmente milagroso o fato dessa catedral ter se mantido em pé enquanto toda a cidade ruía e se transformava em escombros. Dentro da catedral, era como se eu sentisse a presença de todos aqueles que devem ter se abrigado lá, enquanto suas casa queimavam sob as chamas da ignorância, da ganância e da ânsia de poder infinitamente idiota dos homens de ontem (e, infelizmente de hoje ainda...)
Saindo da catedral, passamos ao lado de um portal romano, do ano 50 depois de Cristo e depois  nos sentamos em bancos, de frente pra praça, ouvindo ainda o som melodioso do piano de cauda e o agrupamento multirracial, multicultural e cosmopolita de pessoas que transitavam por ali.  Um tanto de gente do mundo todo, de todas as idades, de todas as cores, desfilando sob meus olhos que não se cansam de se extasiar e se deliciar com esse banho de história e de novidades, com esse tufão de energia e de persistência do povo alemão que tudo perdeu e tudo refez em tão pouco tempo...








A Bélgica


A Bélgica. Um requinte e uma sofisticação que deixou a França pra trás. A França com seu orgulho exagerado, com sua auto-confiança cultural e territorial. E a Bélgica lá. Com suas cortinas bordadas, suas janelas, sua arquitetura à “prova de neve”. Seus chocolates, sua cerveja, as batatas fritas, a música de Jacques Brel, o idioma francês, o flamengo (que é como um dialeto do holandês) e,  para um número bem menor de habitantes,  o alemão. A Bélgica que atravessamos em duas horas de estrada. Seja em qualquer direção, em qualquer lado. Das montanhas “les ardennes” , do litoral na Flandre, à fronteira com a Holanda,  ao Luxemburgo, à Alemanha ou ao norte da França. Duas horas de carro pra qualquer direção e lá estaremos. As estradas todas iluminadas. Na primavera, coelhos no acostamento, os pinheiros, no inverno, as árvores sem folhas , meigas margaridinhas nos gramados.  A simpatia de seu povo, a humildade de se saber culto sem precisar provar isso com nariz empinado e sotaque afetado
Namur, as casas de tijolinhos marrom escuro, as calçadas quase no nível da rua, o rio “la Meuse” que atravessa Namur, as montanhas arborizadas, as muralhas de “la Citadelle”,  o lado medieval da cidade e a família belga, acolhedora, sorridente, festejando nossa chegada.





Muitas construções novas e modernas, prédios de escritórios e apartamentos, seguindo o mesmo estilo de cores das construções antigas, numa arquitetura que consegue, ao mesmo tempo ser sóbria e inovadora. A França não consegue essa proeza. Quer inovar e as novas construções francesas, a meu ver, beiram o “kirsh”, espelhos demais, azulejos demais, como um grande camarim ou uma enorme sala de banhos. Apesar de ser vítima de zombarias e chacotas por parte dos franceses, a Bélgica continua sendo mais chique e mais sofisticada que a França de hoje (a meus olhos, obviamente).
Os Belgas estão decepcionados com seu rei. No auge da apreensão e do medo, na época do pós atentado de novembro, sabendo que os terroristas tinham partido de Bruxelas para explodir a França e que pra lá tinham voltado, o país em estado de alerta, em grau 4, o máximo de perigo, lá se vai o rei  passar uns dias de férias na Bretanha, tipo “foda-se”, tipo “vamos livrar o nosso”.
Algum paparazzi eficiente, clicou a família real em roupão de banho, tomando um drinque no aconchego de um spa à beira mar, no noroeste francês. O povo ficou “puto”. Depois disso, não contente, o rei aparece na tv para se explicar, gaguejando, dizendo desculpas sem se desculpar realmente e afunda ainda mais no mangue de descrédito que tinha começado a criar em torno de sua imagem real.
De resto, tudo continua como se nada tivesse acontecido. As pessoas vivem normalmente, fazem suas compras, tomando seus aperitivos nos cafés, comendo nos restaurantes e “brasseries”.

Os aeroportos aumentaram o controle (a companhia irlandesa Ryan Air, entre outras, oferece preços maravilhosos fazendo com que ir de avião fique mais barato que ir de trem hoje em dia). Ao passar pelo controle de passaportes, ainda no aeroporto de Montpellier, recebo um olhar desconfiado da agente da polícia federal ao apresentar minha carta de identidade francesa. Nos dias de hoje, não basta ter documentos e provar a nacionalidade europeia, os terroristas eram franceses e tinham todos os papéis em dia. Não. Hoje é preciso talvez ter a pele bem branca, rosada, olhos claros mesmo (ou talvez um crucifixo no pescoço) pra não levantar qualquer suspeita. Não sei. Mas vou passando e vou entrando, assim como a música de Caetano “Minha mãe, meu pai, meu povo” que ensina “a sentença de sempre pedir licença mas nunca deixar de entrar”.  

domingo, 20 de dezembro de 2015

As imensidões urbanas de Montpellier

Promenada du Peyrou

Contrastando com as ruelas e cantinhos, as imensidões!!

La promenade du Peyrou, également appelée place royale du Peyrou, est une esplanade de trois hectares aménagée en1689.(fonte titia Wikipedia)
A promenada do Peyrou, igualmente chamada de Praça Real do Peyrou, é uma esplanada de três hectares terminada em 1689. (tradução tabajara Drizotti)

Eu li numa placa que foi Luis XIV quem concebeu a praça que ele institui uma lei que vigora até os nossos dias, que as construções da cidade não podem ser mais altas que o beiral das muretas da parte baixa do parque.

Esses, reis com suas megalomanias, de um lado, trouxeram algumas vantagens. O lugar é lindo!  Lógico que não se pode distrair e é preciso sempre ficar de olho nos cocôs de cachorro que pipocam no meio do caminho e das calçadas, mas à parte disso, esse espaço é realmente de tirar o fôlego.

No final da alameda principal, um monumento com um lago em torno e atrás dele, os aquadutos romanos

à esquerda e à direita, lances de esquda que conduzem a uma parte mais baixa do parque. Pessoas tocando violão, se equilibrando em slacklines, passeando com cachorros, namorando...
Pela grade que dá acesso às ruas, outras ruelas, numa das quais,a casa de Augusto Comte, fundador do positivismo.
É. A França é tudo isso, seus reis, seus filósofos, seu iluminismo, seus cantos escuros, e no meio disso tudo, nós, de bocas abertas, nos surpreendendo com tudo, ainda. E sempre.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A imagem da ternura



anda e anda, avenidas largas e depois ruinhas e ruelas, castelos, igrejas, muros sinuosos, barzinhos, lojinhas e do nada, virando uma esquina, num calçadão estreito e pitoresco a imagem da ternura que faz o coração da cabocla derreter...

Arte de rua



No começo, não entendi. Associei com as bicicletas brancas da cidade de São Paulo as "ghost bikes" que são colocadas nos locais onde algum ciclista morreu por acidente de trânsito

(9 http://vadebike.org/2013/02/ghost-bikes/ ).

Aí devido a essa relação, essas bicicletinhas me davam uma certa aflição no início. Mas são tantas, espalhadas pelas paredes e muros da cidade que comecei achar que não seria possível, tanta criança acidentada num lugar onde o trânsito flui pacificamente e fui pergunta pro nosso querido "Tio Google" e aí está a resposta:

http://www.marieclaire.fr/,street-art-montpellier-velos-encastres-murs-artiste-inconnu,702337.asp

ou seja:
um artista anônimo, produz essa arte de rua em montpellier, paris, bruxelas e nova iorque: bicicletas BMX, incrustadas nas paredes. Ele diz que tem a ver com sua infância e que toda criança que teve uma bicicleta dessas sonhava com grandes aventuras... ele fez a primeira arte assim em montpellier, pra impressionar uma namorada e agora elas pipocam pelas outras cidades também!!!

Então é isso! Nada de mortes, apenas uma declaração de amor pra namorada, apenas uma forma de resistência de alguém que prefere permanecer anônimo e continuar a transgredir de uma maneira eficiente e divertida!  Et Vive la France!!

Montpellier é uma cidade cheia de ciclovias e de facilidades para os ciclistas.

E oremos e lutemos para que, no Brasil, a educação e a civilidade no trânsito evolua de tal forma que as bicicletas fantasmas, pintadas de branco, possam ser repintadas em cores e flores em homenagem à uma nova geração de condutores que respeitem os pedestres e ciclistas e de governantes que apoiem a criação de ciclovias e locais pra se estacionar bicicletas.
E que as pessoas finalmente entendam que tempo não é dinheiro e que uma cidade de ciclistas é uma cidade menos poluída, mais fluida,  mais feliz!




                                                             Ciclovia em São Paulo


                                     http://www.cetsp.com.br/consultas/bicicleta/400km.aspx



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

As ruelas de Montpellier



Há algo de pitoresco, de medieval, de árabe, de ancestral nessas ruelas estreitas, cheias de portas e janelas e lojinhas... um aconchego, talvez lembranças de vidas passadas, ou registros inconscientes de filmes assistidos ao longo da vida, sensações, memórias obscuras escondidas no mais profundo de mim, não sei. Só sei que gosto, me sinto protegida, em casa, acolhida, tranquila.
O poder de um estilo arquitetônico, a força que paredes de tijolo antigo e pedra e o entalhe das madeiras e a maneira de forjar os ferros das maçanetas, das dobradiças... é todo um conjunto que provoca a seu turno, um outro conjunto de afectos que, em uma só palavra pode ser definido: Bom!