Diário de viagem, traduções, poemas e desabafos das minhas andanças pelo meu mundo adentro e por esse mundo afora...
sábado, 19 de dezembro de 2015
A imagem da ternura
anda e anda, avenidas largas e depois ruinhas e ruelas, castelos, igrejas, muros sinuosos, barzinhos, lojinhas e do nada, virando uma esquina, num calçadão estreito e pitoresco a imagem da ternura que faz o coração da cabocla derreter...
Arte de rua
No começo, não entendi. Associei com as bicicletas brancas da cidade de São Paulo as "ghost bikes" que são colocadas nos locais onde algum ciclista morreu por acidente de trânsito
(9 http://vadebike.org/2013/02/ghost-bikes/ ).
Aí devido a essa relação, essas bicicletinhas me davam uma certa aflição no início. Mas são tantas, espalhadas pelas paredes e muros da cidade que comecei achar que não seria possível, tanta criança acidentada num lugar onde o trânsito flui pacificamente e fui pergunta pro nosso querido "Tio Google" e aí está a resposta:
http://www.marieclaire.fr/,street-art-montpellier-velos-encastres-murs-artiste-inconnu,702337.asp
ou seja:
um artista anônimo, produz essa arte de rua em montpellier, paris, bruxelas e nova iorque: bicicletas BMX, incrustadas nas paredes. Ele diz que tem a ver com sua infância e que toda criança que teve uma bicicleta dessas sonhava com grandes aventuras... ele fez a primeira arte assim em montpellier, pra impressionar uma namorada e agora elas pipocam pelas outras cidades também!!!
Então é isso! Nada de mortes, apenas uma declaração de amor pra namorada, apenas uma forma de resistência de alguém que prefere permanecer anônimo e continuar a transgredir de uma maneira eficiente e divertida! Et Vive la France!!
E oremos e lutemos para que, no Brasil, a educação e a civilidade no trânsito evolua de tal forma que as bicicletas fantasmas, pintadas de branco, possam ser repintadas em cores e flores em homenagem à uma nova geração de condutores que respeitem os pedestres e ciclistas e de governantes que apoiem a criação de ciclovias e locais pra se estacionar bicicletas.
E que as pessoas finalmente entendam que tempo não é dinheiro e que uma cidade de ciclistas é uma cidade menos poluída, mais fluida, mais feliz!
Ciclovia em São Paulo
http://www.cetsp.com.br/consultas/bicicleta/400km.aspx
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
As ruelas de Montpellier
Há algo de pitoresco, de medieval, de árabe, de ancestral nessas ruelas estreitas, cheias de portas e janelas e lojinhas... um aconchego, talvez lembranças de vidas passadas, ou registros inconscientes de filmes assistidos ao longo da vida, sensações, memórias obscuras escondidas no mais profundo de mim, não sei. Só sei que gosto, me sinto protegida, em casa, acolhida, tranquila.
O poder de um estilo arquitetônico, a força que paredes de tijolo antigo e pedra e o entalhe das madeiras e a maneira de forjar os ferros das maçanetas, das dobradiças... é todo um conjunto que provoca a seu turno, um outro conjunto de afectos que, em uma só palavra pode ser definido: Bom!
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Antígona
Antigone est un quartier de Montpellier conçu par l'architecte catalan Ricardo Bofill à partir de 1987 sous l'impulsion du maire de Montpellier Georges Frêche. La majorité des immeubles a été construite sur un style inspiré par l'architecture de la Grèce antique selon le projet de l'architecte suivant un axe qui se veut faire écho à l'est à celui qui a structuré la ville à l'ouest, avec lapromenade du Peyrou et l'aqueduc des Arceaux.
A Antígona é um bairro de Montpellier concebido pelo arquiteto catalão Ricardo Bofill a partir de 1987 estimulado pelo prefeito de Montpellier Georges Frêche. A maioria dos imóveis foram construidos inspirados pela arquitetura da Grécia antiga segundo o projeto do arquiteto, seguindo um eixo que pretende fazer espelho à leste ao que estruturou a cidade ao oeste com o callçadão du Peyrou e o arqueduto dos Arcos. (tradução Drizotti)
Bom tudo lindo, tudo maravilhoso para os arquitetos de plantão. Pra mim, sei lá... ficou estanho, impessoal. Há apartamentos, centros comerciais, mas tudo com ar de cidade deserta, parece que não há vida, tudo muito certinho, muito limpinho, muito Blade Runner, o caçador de andróides.
O agente imobiliário tinha encontrado um apartamento pra gente lá. Jamais moraria num lugar desses, dá meio medo, tudo meio vazio, perfeito demais.
O bairro onde escolhemos morar é mais real, mais vivante (como se diz aqui) perto das universidades, dos colégios onde o Nick provavelmente estude, da Escola Waldorf de Montpellier, do campo de futebol...
E é isso aí! Tudo muito lindo, tudo muito perfeito, mas prefiro a vida, o povão, a bagunça, a juventude, a alegria. E tenho dito!!!!
To levando o Brasil pra passear...
Aqui as pessoas nos perguntam a razão de termos saído do Brasil
o sonho de todas e todas é conhecer o Brasil, viver no Brasil
"O que vocês fazem aqui, vindo e um país tão lindo?"
Não hesitei em nenhuma das vezes
nem na prefeitura, nem na escola, nem no banco,
nem na reunião com o proprietário do apê
nem no restaurante, nem "nule part"
"Era hora de vir pra cá. Era hora de ficar aqui
de procurar oportunidades pro meu filho,
de refazer minha vida profissional
sem benevolências, sem voluntariados infinitos
sem carregar as pessoas nas costas
simplesmente ser um profissional de psicologia"
E hoje, ao acordar eu compreendi tudo.
Eu não deixei o Brasil e vim pra Europa
Eu simplesmente, peguei o Brasil, coloquei numa mala
e trouxe o Brasil pra passear
trouxe o Brasil pra aprender a lutar pelos seus direitos
a não se deixar enganar pela tv e nem pelos apelos de demagogos
sejam eles políticos, burgueses,
ou "ditos" militantes folgados encostados no governo
trouxe o Brasil pra conhecer o Brasil
pra deixar de lado essa mania de "folgar" nos outros
e achar que isso é sabedoria ou inteligência
pra reconectar e ressaltar a pureza e a honestidade das pessoas do campo
das pessoas simples e trabalhadoras,
daqueles que sempre fizeram o Brasil andar
pra reativar o poder da palavra pelo "fio do bigode"
da dignidade inata, da honra de se cumprir o que se combinou
da capacidade de ser grato por um favor recebido
de reconhecer quem o ajudou e fazer o mesmo,
passar pra frente o gesto.
Hoje entendi que sou o Brasil
sou os olhos, os ouvidos e a boca do Brasil
e que vou olhar, tudo, ouvir tudo e contar tudo
que vejo aqui
pra que o Brasil conheça o Brasil
pra que "os espertinhos" que habitam cada um de nós
possam morrer pouco a pouco
e que o Brasil se torne um lugar gostoso, sério e alegre
pra se viver
e pra se voltar a viver um dia.
o sonho de todas e todas é conhecer o Brasil, viver no Brasil
"O que vocês fazem aqui, vindo e um país tão lindo?"
Não hesitei em nenhuma das vezes
nem na prefeitura, nem na escola, nem no banco,
nem na reunião com o proprietário do apê
nem no restaurante, nem "nule part"
"Era hora de vir pra cá. Era hora de ficar aqui
de procurar oportunidades pro meu filho,
de refazer minha vida profissional
sem benevolências, sem voluntariados infinitos
sem carregar as pessoas nas costas
simplesmente ser um profissional de psicologia"
E hoje, ao acordar eu compreendi tudo.
Eu não deixei o Brasil e vim pra Europa
Eu simplesmente, peguei o Brasil, coloquei numa mala
e trouxe o Brasil pra passear
trouxe o Brasil pra aprender a lutar pelos seus direitos
a não se deixar enganar pela tv e nem pelos apelos de demagogos
sejam eles políticos, burgueses,
ou "ditos" militantes folgados encostados no governo
trouxe o Brasil pra conhecer o Brasil
pra deixar de lado essa mania de "folgar" nos outros
e achar que isso é sabedoria ou inteligência
pra reconectar e ressaltar a pureza e a honestidade das pessoas do campo
das pessoas simples e trabalhadoras,
daqueles que sempre fizeram o Brasil andar
pra reativar o poder da palavra pelo "fio do bigode"
da dignidade inata, da honra de se cumprir o que se combinou
da capacidade de ser grato por um favor recebido
de reconhecer quem o ajudou e fazer o mesmo,
passar pra frente o gesto.
Hoje entendi que sou o Brasil
sou os olhos, os ouvidos e a boca do Brasil
e que vou olhar, tudo, ouvir tudo e contar tudo
que vejo aqui
pra que o Brasil conheça o Brasil
pra que "os espertinhos" que habitam cada um de nós
possam morrer pouco a pouco
e que o Brasil se torne um lugar gostoso, sério e alegre
pra se viver
e pra se voltar a viver um dia.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
No meio do caminho tinha uma casa...
No meio do caminho tinha uma casa
tinha uma casa no meio do caminho...
andando pelas ruas, procurando o que seria equivalente ao INSS aqui na França
topamos com uma rua cheia de casas assim
e é assim, do nada que castelinhos aparecem no meio do caminho
e pelas ruelas sinuosas, bares, lojinhas indianas, lojas de instrumentos musicais
comida boa pelas brasseries, pão crocante, queijos e vinhos baratos e de qualidade
pessoas civilizadas, trânsito organizado
e seguimos andando, nos maravilhando com as novidades do velho mundo
até que o tempo passe
e a vontade de Mata Atlântica, de Cerrado, de praias de areia macias sejam mais forte
que toda essa novidade cheia de requinte e capricho
e aí, em algum dia da velhice,
trocarei o requinte da sofisticação e da civilização
por um cantinho de chão, onde eu possa ver estrelas
tomar banho de cachoeira com a pele que deus me deu
usando as tintas das tatoos e as artes dos desenhos dos tatuadores como roupa
e morrerei feliz entre amigos, pássaros coloridos, saguis e o som
da água a rolar: chuá chuá!!!
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
OS TRAMs DE MONTPELLIER e o caminho do mar

São bondes elétricos e, por todo lado, lá estão eles, atravessando a cidade aos montes. Não se espera mais que 6 ou 8 minutos e já passa outro, cheios de gente tão diferente umas das outras que dá gosto de ver.
Mulheres de burca de todos os tipos (vi ontem uma de burca de oncinha e lenço de oncinha na cabeça). Negros atletas, rastafaris, coloridos, terno e gravata, brancos em uniforme de polícia, em roupa de moleton, senhoras idosas com suas flores e lencinhos, senhores idosos de sobretudo, poucos orientais, jovens, muitos jovens, bebês aos montes, de todas as cores e sorrisos com pais mussulmanos, ou tipicamente europeus, muitos pais com crianças, avós e netos, mocinhas de filme, mocinhos multiraciais, tudo ali, tranquilos, serenos, nem bravos, nem escancarados, mas todos, digo, todos e todas, sempre dispostos a dar uma informação ou a se desculpar por não saber responder a contento.
Onde os trams não chegam, os ônibus vão.
Sábado pegamos um deles até o terminal e depois tomamos um ônibus que nos levou à beira do mar maditerrâneo, numa avenida clara, com prédios de dois andares de ambos os lados.
De vez em quando, a cada quadra, uma entrada pra praia, com cabines de banheiro gratuito feminino e masculino.
A praia, de uma areia meio fina, cheia de conchas bem espessas, (muito mais que as conchas de Ubatuba, por exemplo, que quebram facinho), e alguns pedregulhos pelo meio.
O mar azul clarinho, com veleiros passando ao longe.
Mar Mediterrâneo de lendas e histórias, mar mediterrâneo com a África do lado de lá, mar da Espanha, da Itália, da Grécia e do sul da França também!
E lá estava eu, diante dele, sentindo uma calma e uma serenidade novas.
Vendo meu filho se arrepiar de frio enquanto mergulhava em suas águas gélidas de inverno, e assistindo a onda leve que ia e vinha ouvi uma voz que me dizia:
"Continue assim, sem se preocupar, fez certo em ter vindo, aqui, agora é o seu lugar".
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